Fragmento de A Viagem Vertical, romance de Enrique Vila-Matas
Que maravilha olhar no espelho e ver a figura de um velho de boa aparência, empenhado em deixar que as coisas chegassem e depois fossem embora desprovidas de sentido, diferente do que acontecia com os pobres jovens, sempre aflitos por se integrar à sociedade. Além do mais, pensava Mayol, só o velho é um verdadeiro homem, porque está fora de lugar. Que absurdo pensar que um homem deve ocupar um lugar na vida, que absurdo, e no entanto muitos jovens acreditam que devem lutar para conseguir um espaço no mundo, espaço este que não existe porque todos os homens estão fora de lugar, mas só o velho tem consciência e por isso pode sentir-se feliz ao ficar fora do mundo, afundando cada dia mais no seu atraente abismo próprio. Além disso, pensava Mayol, o velho pode enganar a morte e brincar com ela, imitando a astúcia enganosa da vida. Era magnífico sentir-se afundando e ser velho e ter a capacidade de afundar ainda mais. Era uma dupla maravilha, levando-se em consideração que, além disso, a velhice era ainda a idade mais próxima da grande mudança, a famosa morte a que se atribui a fabulosa possibilidade de mudar tudo.





