Fragmento de ''A Praça do Diamante'' de Marcè Rodoreda
''Em vez de espantar os pombos para que se desinteressassem dos filhotes, passei a pegar os ovos e sacudi-los com fúria. Achava que já tinham um filhote dentro. Que ia fazer a cabeça dele bater contra a casca do ovo e desmaiá-lo. Os pombos chocavam o filhote por dezoito dias; quando estavam na metade, eu sacudia os ovos. Quanto mais adiantados estavam na tarefa de chocar, mais ficavam irritados. Mais febre. Mais vontade de querer bicar. Quando enfiava a mão por baixo das penas quentes, a cabeça e o bico do pombo procuravam minha mão por entre suas penas, e quando minha mão saía com os ovos, a bicavam.
Foi uma fase agitada. Dormia com o coração sobressaltado, como quando era pequena e meus pais brigavam e depois minha mãe ficava triste e sem reação, sentada pelos cantos. E acordava à meia-noite, como se puxassem minhas entranhas com um barbante, como se ainda tivesse o umbigo de nascença e me puxassem inteira pelo umbigo, e com aquele puxão fosse tudo embora: os olhos e as mãos e as unhas e os pés e o coração com o canal no meio com um grumo preto de sangue coagulado, e os dedos dos pés que viviam com se estivessem mortos: era igual. Tudo era sugado para a onda outra vez, pelo cordãozinho do umbigo que tinham feito secar amarrando-o. E em volta desse puxão que me levava embora, havia uma nuvem de penas de pombo, fofa, para que ninguém pudesse perceber nada. Durou meses. Meses e meses dormindo mal e estragando os ovos dos pombos. Muitos chocavam à toa dois ou três dias além do tempo que deviam chocar, esperando.''
(Fragmento de ''A Praça do Diamante'' de Marcè Rodoreda)





