(Fragmento de A História do Amor, de Nicole Krauss)
''No outono, minha mãe voltou à Inglaterra para começar a universidade. Os bolsos dela estavam cheios de areia do lugar mais baixo da Terra. Ela pesava cinquenta quilos. Há uma história que às vezes ela conta sobre a viagem de trem da estação de Paddington para Oxford em que encontrou um fotógrafo quase completamente cego. Ele usava óculos de sol e dizia que havia danificado as retinas uma década antes numa viagem à Antártica. Tinha o paletó impecavelmente passado e levava uma câmera no colo. Disse que agora via o mundo de forma diferente e ele não era necessariamente ruim. Perguntou se podia fotografá-la. Quando ergueu a lente e olhou através dela, minha mãe perguntou o que ele via. ''O mesmo que vejo sempre'', ele disse. ''O quê?''. ''Um borrão'', ele disse. ''E então por que você continua?'', ela perguntou. ''Para o caso de meus olhos sararem um dia'', disse ele. ''Para que eu saiba o que olhava.'' No colo da minha mãe havia um saco de papel marrom com um sanduíche de fígado picado que minha avó tinha feito para ela. Ela ofereceu o sanduíche ao fotógrafo quase completamente cego. ''Não está com fome'', ele perguntou. Ela disse que sim, mas nunca contara à mãe que não gostava de fígado picado e era tarde demais para fazê-lo, uma vez que não dissera nada durante anos. O trem entrou na estação de Oxford, e minha mãe desceu, deixando para trás um trilha de areia. Sei que essa historia tem uma moral, porém não sei qual é.''
(Fragmento de ''A História do Amor'', de Nicole Krauss)





