Fragmento de ''A Ditadura Derrotada'' de Elio Gaspari
''Como é que eu iria justificar uma recessão depois da euforia, do desenvolvimento do governo do Medici? E como iria resolver o problema social que resultaria do consequente desemprego?'', perguntaria Geisel, vinte anos depois.
O presidente não associou a busca do crescimento a nenhum projeto de mudança de regime. Pelo contrário, sustentou a estratégia de crescimento para preservar a base legitimadora da ditadura. Pisou no acelerador para manter o curso. A recessão era vista muito mais como um perigo político do que como uma probabilidade econômica. O governo tinha pouco mais de um mês quando a Censura emitiu a seguinte ordem: ''De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação, através de meios de comunicação social, escrito, falado e televisado, notícia, comentário, transcrição, entrevista, comparações e outras matérias relativas à recessão econômica. Fica igualmente proibida a divulgação de análises, resultados, ainda que hipotéticos, sobre a recessão econômica.''
Por absurda, a proibição causou estupor a Golbery e Simonsen. Não se pode dizer que ela tenha fantasiado as páginas econômicas dos jornais. Sua importância está mais na origem do que nos resultados. Uma ordem desse tipo só saía da Policia Federal depois de passar pelo ministro de Justiça, e dificilmente Armando Falcão tomaria tal iniciativa ser ter recebido recomendação do próprio presidente.
Na reunião secreta que teve com o Alto-Comando das Forças Armadas, em junho, Geisel esclareceu a natureza política dos riscos trazidos pelas incertezas mundiais: ''Vivemos numa situação de crise econômica, com possibilidade de recessão. Há um ambiente propício para a ofensiva da esquerda. Exploram tudo o que é possível, todos os chavões são explorados.''





