Fragmento da novela O Corpo de Hanif Kureishi
Quando jovem, eu queria entrar nos corpos, e não apenas numa porção de mim: queria me entocar neles, viver lá dentro. Se isso parece pouco prático, pode-se ao menos travar conhecimento com um corpo dormindo ao lado dele. Depois, podemos enfiar pedaços de nosso corpo em outros corpos. É um grande barato. Antes de conhecer minha esposa atual, passei um tempo pondo áreas sensíveis do meu corpo o mais próximo possível de áreas sensíveis de outros corpos, aprendendo tudo que podia sobre os corpos que querem.
Quanto mais velho e doente a gente vai ficando, menos o corpo se revela um adereço, menos as pessoas querem tocá-lo. Para tanto, será necessário pagar. Massagistas e prostitutas cuidarão das carícias, se receberem algum dinheiro.
Quando chega a puberdade, as pessoas começam a se preocupar com a forma e o tamanho de seus corpos. Pensam um bocado no assunto, ainda que os sensatos saibam que seus corpos nunca lhes propiciarão a satisfação que desejam, porque é seu apetite, mais do que sua constituição física, que os preocupa. O apetite decerto altera a forma de um corpo e a maneira como os outros o vêem.
(Fragmento da novela ''O Corpo'' de Hanif Kureishi)





