As convenções são o cancro do mundo. Somente elas poderiam justificar um casamento de cinquenta anos entre pessoas que se odeiam. De qualquer forma, seres humanos deveriam ser isolados uns dos outros, mas não aos pares.
Dentro da casa os únicos sinais de vida eram emitidos pela tevê, a risada do Sílvio Santos com seu permanente hálito de macarrão com frango. A velha estava silenciosa na cozinha, lavando a louça suja do almoço.
Deixei-a quieta e fui até o quarto. Não sei por que, mas sempre relacionei a alfazema daqueles cômodos com a morte, mesmo quando a casa ainda estava cheia de vida, com irmãos, pais, tios e primos se revezando no banheiro apertado de suas necessidades vastas e ruidosas. Então ouvi a tosse do velho e suas sandálias arrastando pela escada dos fundos. Fui até a copa. A velha estava encostada no batente, enxugando as mãos num pano de prato, olhar perdido na televisão. Ele estacara na porta de entrada. Seu pijama permanecia sujo dos restos mortais do jardim. E apertava com força o sapo esmagado nas mãos.
A velha ergueu os olhos. Ele disse: 'Eu vou morrer logo, mas não pense que haverá tempo para se divertir sem mim. Seis meses depois você vai me encontrar.''
(Fragmento de ''O Deus dos Batráquios'', conto que integra ''Curva de Rio Sujo'' de Joca Reiners Terron)

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