Fragmento
‘‘Era preciso aceitar a tarefa mais ingrata: essa de se deixar ficar enquanto fosse possível a reedição diária das horas. Se me impregnasse todo do fluxo invisível da minha manutenção, me deixaria ficar ali na praia, torrando de baixo do sol, dormindo por ali mesmo, saciado muito mais que carente, pronto para ser abatido, é certo, mas sentindo, também é certo, um surdo regozijo sem o poder de me levar a parte alguma, a nenhum lugar. Eu estaria se assim se desse, juro. É que as pessoas ficam sempre achando que a saúde está em outro lugar, no agasalho de outro coração. Ficam sempre achando que é preciso resistir o tempo todo, manterem-se firmes como se estivessem ministrando necessariamente uma lição de luz e não trevas. Eu fora sempre tão forçado a resistir que hoje queria estar entregue.’’
(Fragmentos do livro ‘‘Canoas de Marolas’’ de João Gilberto Noll)

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