Frágeis artefatos de um sentimento improvável
Novo romance de Ian McEwan reflete sobre os conflitos éticos da inteligência artificial
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de julho de 2019
Novo romance de Ian McEwan reflete sobre os conflitos éticos da inteligência artificial
Marcos Losnak 
A sede de tecnologia é infindável. Logo que acabamos de saciar a sede de uma tecnologia, logo aparece uma nova tecnologia para saciar uma nova sede que dá origem a uma outra tecnologia para estimular uma outra sede e assim sucessivamente num processo infinito.
Nas últimas décadas, a velocidade das tecnologias a serem saciadas tornaram-se tão aceleradas que suprimiram o tempo hábil para o homem refletir sobre a própria tecnologia, sobre a sede em si, sobre as conexões entre elas e suas consequências.
Em seu novo romance “Máquinas Como Eu e Gente Como Vocês”, o escritor inglês Ian McEwan realiza uma instigante reflexão sobre os conflitos éticos das novas tecnologias. Mais especificamente sobre os conflitos éticos que envolvem a inteligência artificial.
Seguindo os passos de autores como o alemão E. T. A. Hoffman (1776 – 1822) e o norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982), o romance narra a história de um mundo que começa a viver na companhia de autômatos, replicantes e androides após a aprimoramento da robótica num futuro imaginário.
A surpresa narrativa de Ian Ewan está em colocar o futuro no passado. As novas tecnologias e a inteligência artificial que dão origem aos primeiros androides não acontecem nas supostas década de 2050, mas no início histórico da década de 1980.
Lançado pela editora Companhia das Letras, “Máquinas Como Eu e Gente Como Vocês”, narra a história de Charlie, um jovem que vive em Londres em 1982. Após receber uma herança de família, resolve comprar um exemplar da primeira geração de androides disponíveis no mercado: Adão e Eva. Como as Evas são as mais procuradas, Charlie se contenta com um Adão.
No momento de definir as características de personalidade da nova “máquina humana”, entra em conflito com a facilidade de programar o novo ser à sua imagem e semelhança. Tentando evitar o desejo de replicar-se, de criar uma personalidade espelho, Charlie resolve dividir a tarefa com Miranda, sua vizinha amiga.

Com a experiência, Charlie e Miranda se apaixonam e começam a namorar. E Adão, inesperadamente, contrariando a lógica de fabricação, se apaixona por Miranda. E assim tem início um triângulo amoroso que não se encaixa em nenhum padrão.
Adão, graças à sua capacidade de se conectar a toda informação disponível no mundo pela internet, deixa de ser uma máquina calculista para se adaptar aos sentimentos humanos que não entende completamente.
Adão e seus irmãos sintéticos não conseguem decodificar a instabilidade do sentimento humano, como não conseguem racionalizar as incertezas emocionais das pessoas. E apesar de todos os logarítmicos possíveis, não conseguem entender as diferentes nuances entre as pequenas mentiras e as grandes verdades.
Nos argumentos básicos da literatura de ficção científica, as máquinas se humanizam, adquirem sentimentos humanos. Ou, por outro lado, desejam se livrar da humanidade, desejam extinguir o criador que se torna obsoleto. O argumento proposto por Ian McEwan segue caminho diferente.
Seu argumento é de que, quando as máquinas conquistam a humanidade, e entendem o que essa humanidade significa e representa, elas simplesmente se recusam a fazer parte dele. Se autodestroem. Deletam a memória, o próprio HD. Em outras palavras, quando uma máquina torna-se demasiadamente humana, ela está demasiadamente propensa ao suicídio por se recusar a fazer parte de uma existência sem sentido.
Ian McEwan apresenta uma série de camadas de observações que envolvem o desenvolvimento da inteligência artificial. E não se trata apenas de revelar que o homem cria máquinas à sua imagem e semelhança, mas que coloca o destino nas mãos delas.
Demonstra que, nos dias atuais, é possível vislumbrar que os homens deixaram de determinar o destino da tecnologia para serem determinados por ela. O homem comum não está mais no papel de consumidor de tecnologia, mas no papel de produto da tecnologia. Os homens não decidem mais o destino das máquinas. As máquinas decidem o destino dos homens.

Serviço:
“Máquinas Como Eu e Gente Como Vocês”
Autor – Ian McEwan
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Jorio Dauster
Páginas – 328
Quanto – R$ 54,90


