Fotógrafo revela a beleza das conchas do mar em mostra em SP
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 20 (AE) - Há quem enumere uma dezena de benefícios em trocar uma casa de vila numa megalópole poluída por outra no meio de uma reserva florestal colada ao mar, na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, litoral paulista. O fotógrafo José Eduardo Cerqueira César Corbisier apropriou-se de algumas dessas vantagens, de perceber as coisas simples, de aguçar os sentidos, de apurar o olhar e observar objetos para o quais talvez só as crianças dêem importância. Por exemplo: as conchas.
"Fragmentos - Litoral Norte", exposição que Corbisier abre amanhã (21) (e se estende até segunda-feira, com exceção do domingo) na Livraria Spiro, reúne 30 macrofotografias do artista. Suas modelos são as conchas, duas delas trazidas da Inglaterra por sua mulher, que é oceanógrafa, mas todas as outras recolhidas ali mesmo, nas areias de Itamambuca e em outras praias da região de Ubatuba, onde mora desde 1986, quando trocou as alamedas engarrafadas do bairro dos Jardins pelas trilhas do litoral. Em quase todas as fotografias, Corbisier utiliza como fundo folhas velhas de palmeira que contrastam com as cores das conchas.
As fotografias, todas elas, no tamanho padrão de 20 cm x 30 cm estarão à venda por preços que variam entre R$ 195 e R$ 220. "As fotos nos fazem observar de maneira mais cuidadosa o mundo que existe sob nós", afirma Corbisier. Esse mundo a que se refere o artista pode parecer um universo de cacos aos olhos de um praiano de feriados, mas, ampliada pelas lentes da Nikon F3 do fotógrafo, surge como peças de indefinível beleza, invólucros de animais (no caso dos caramujos), com brilho de madrepérola. A indústria descobriu há tempos esses moluscos e os transforma em objetos de adorno, botões etc.
O artista tem 56 anos e fotografa desde os 14. Nasceu em São Paulo e formou-se em cinema pelo Institut des Haute Études Cinématographiques de Paris, em 1967. Trabalhou como assistente do diretor Ruy Guerra, em "Os Fuzis", e de Anselmo Duarte, em Vereda da Salvação. Foi fotógrafo de publicidade, arquitetura, decoração, indústria e turismo. Em 1970, fundou a empresa Studio C S/C Ltda. Em 1985 começou a fotografar veleiros de oceano, tema que resultou na primeira de uma série de quatro exposições individuais chamadas "Veleiros de Oceano", no Museu da Imagem e do Som (MIS) e na loja Power & Sail Shop. As fotografias eram feitas durante regatas no litoral de São Paulo, que o artista acompanhava em seu veleiro.
Depois de morar por mais de 40 anos na cidade em que nasceu, Corbisier decidiu trocar São Paulo pelo litoral e a explicação pode estar num dos textos que apresentam a exposição, escrito pelo pai do artista, o filósofo Roland Corbisier, em que se lê: "Enquanto à nossa volta a cidade crescia vertiginosamente, multiplicando os arranha-céus e o casario suburbano, destruindo-se para reconstruir-se de acordo com o modelo de Nova York, enquanto a cidade em que nascera e me educara se tornava cada vez mais estranha e irreconhecível, provinciana e cosmopolita, babélica e caótica, mais agudo se tornava em mim o sentimento da inadaptação e da estranheza". Serviço - José Eduardo Cerqueira César Corbisier. Quinta, sexta e segunda, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 16 horas. Livraria Spiro. Alameda Lorena, 1.979, tel. 853-8855. Até 25/10


