Fotógrafo que denunciou ditadura militar faz palestra na UEL
Evandro Teixeira, nome reconhecido do fotojornalismo brasileiro, esteve em Londrina e falou de seu trabalho durante o regime
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de abril de 2019
Evandro Teixeira, nome reconhecido do fotojornalismo brasileiro, esteve em Londrina e falou de seu trabalho durante o regime
Marian Trigueiros - Grupo Folha 
Andando pelos corredores da UEL (Universidade Estadual de Londrina) com um modelo compacto de uma câmera Lumix a tiracolo, o fotógrafo Evandro Teixeira parecia mais um menino com um novo videogame nas mãos. “Comprei faz pouco tempo e estreei no último carnaval. Nunca imaginei, um dia, que teria tudo na palma na mão; com apenas um botão eu mando os arquivos pela internet. Fiz cada imagem linda lá durante a festa deles, que é diferente desse carnaval comercial de hoje”, conta, sobre a recente viagem à Maragogi, cidade ao norte de Alagoas.

Se o novo “brinquedo” rende boas imagens, o que não lhe faltam são imagens marcantes ao longo de mais de 50 anos de carreira na fotografia. Dentre as mais conhecidas, fotos emblemáticas da época da ditadura militar no Brasil, vários presidentes, além de ter feito a cobertura da morte de Pablo Neruda no Chile de Pinochet, diversos Jogos Olímpicos e Copas do Mundo. Também fotografou personagens importantes da história como o piloto Ayrton Senna e sua eterna piscada de olhos. “Com o tempo se adquire a experiência e a habilidade em conseguir o melhor ângulo. Mas também tive muita sorte, em outros momentos, não media o perigo.”
Aos 83 anos, um dos maiores nomes do fotojornalismo brasileiro diz não querer parar de aprender e ainda viaja em ritmo acelerado por todo o mundo, incluindo a China, local de sua última exposição. A mais recente parada foi em Londrina, onde esteve para o bate-papo “A fotografia no contexto da história”, na última segunda-feira (1) durante a VII Semana da Comunicação da UEL, em que falou sobre as transformações do jornalismo, da própria fotografia e de alguns momentos importantes que registrou da história.

Ironicamente, chegou à cidade no dia 1º de abril, mesmo dia em que havia sido vítima de adulteração de um de seus trabalhos - uma foto tirada em 1968, no Rio de Janeiro, teve o rosto do personagem modificado pelo rosto do ex-presidente Lula acompanhada da legenda: “Militares botando Lula pra correr desde 1964”. A imagem, originalmente, foi feita em 1968, na chamada “Sexta-Feira Sangrenta” e mostra um estudante de medicina que caía desesperado, diante de dois policiais com cassetetes em punho. O estudante acabou morrendo (veja foto nesta página).
Ao mesmo tempo em que comemora as novas tecnologias, se diz revoltado com situações do tipo: “Infelizmente, não há muito o que se fazer com relação à manipulação. É difícil chegar ao autor do crime.” Otimista de que a população vai acordar para um dos piores momentos da política, diz querer não acreditar em tempos sombrios novamente. “Parece que as pessoas estão adormecidas ou malucas. Nunca imaginei que voltaríamos a viver o passado”, comenta ele, acrescentando que uma das imagens mais impactantes que já viu foi do suposto “suicídio” do jornalista Vladimir Herzog, em 1975.

Carreira
Evandro iniciou sua carreira no fotojornalismo em 1958, no jornal carioca Diário da Noite. Em 1963, ingressou no Jornal do Brasil, onde se consagrou como figura mítica do fotojornalismo nacional. Trabalhou lá por 47 anos, parando em 2010, quando o jornal interrompeu a circulação impressa. Publicou vários livros: Fotojornalismo (1982), Canudos 100 Anos (1997), Livro das Águas (2001), Pablo Neruda: Vou Viver (2005), 68 Destinos: Passeata dos 100 Mil (2008). Seu livro mais recente é Evandro Teixeira: Retratos do Tempo, 50 anos de Fotojornalismo, de 2015.


