Fotógrafo narra as origens de seu trabalho
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quinta-feira, 06 de março de 2014
Silas Martí<br>Folhapress 
São Paulo - Nas ilhas Galápagos, arquipélago na costa do Equador, Sebastião Salgado engatinhou um dia todo com uma tartaruga gigante, só para poder fotografar melhor o bicho. "Fiquei agachado e comecei a caminhar na mesma altura que ela, com palmas e joelhos no chão", conta.
Salgado, 70, decidiu abrir sua biografia, que chega agora às livrarias, com esse relato, dando a entender que embora mostre sempre um instante decisivo, chegar a esse momento exige tempo.
"É aquela brevidade que se materializa na fotografia, mas você precisa caminhar 800 quilômetros para fazer", diz o fotógrafo, em entrevista à reportagem. "É necessária uma vida para fazer tudo isso."
Tanto que seus projetos costumam consumir anos e envolvem longas viagens ao redor do planeta, do Equador até o coração da África.
Miséria e decadência
Um dos nomes mais celebrados da fotografia, Salgado fez de sua carreira um testemunho de um mundo em transição, focando a miséria humana em sociedades agrárias ou economias industriais em plena decadência para compor uma "arqueologia visual dessa era antes que ela fosse varrida para longe". "Foi uma opção de vida, fiz tudo com a maior honestidade intelectual", diz Salgado.
"Fotografia é minha vida, mas não acho que sozinhas as minhas imagens foram determinantes. Eu me vejo como parte de um corpo de ideias, discutindo temas essenciais da nossa história."
Em cinco entrevistas à amiga Isabelle Francq, que escreveu a biografia "Da Minha Terra à Terra", Salgado destrincha os primórdios desse fazer fotográfico, começando pelas origens de seu olhar.
Ele lembra a infância no interior de Minas Gerais, sob "céus carregados atravessados por raios de luz" e longas travessias com o pai, que levava mais de um mês na estrada para levar os porcos da fazenda ao abatedouro.
Dos rincões de Minas às savanas de Ruanda e do Burundi no volante de um Fusca, Salgado narra como abandonou a vida confortável de economista, uma decisão que tomou num barquinho no meio de um lago no parque Hyde, em Londres, e deu tudo o que tinha para virar fotógrafo. Sua mulher, Lélia, arquiteta e urbanista, chegou a sustentar o casal quando o artista ainda tateava o mundo das agências de fotografia. Viviam num apartamento em Paris que nem chuveiro tinha.
Espionagem
Salgado, que se radicou na capital francesa, havia se mudado para lá no início da ditadura no Brasil. Descobriu só agora, com a abertura dos arquivos do regime militar, que chegou a ser espionado pelo governo brasileiro.
"Foi um momento difícil na minha vida. Cheguei a pensar que nunca mais poderia voltar ao meu País", diz Salgado. Mas voltou e retratou a ascensão ao poder de Lula e lideranças da esquerda, mantendo contato com todos eles.
Salgado está agora no Brasil para dar início a uma nova série. Ele adianta que vai à Amazônia fotografar índios. "Vou entrar na Amazônia com eles", conta. "Nossa verdadeira história é a história da cultura indígena. Estou começando a trabalhar isso."


