É mais fácil acreditar no que o espelho não diz, deixando ele mentir sobre o tempo, já que toda vez que mostra a nossa imagem, parece que um ano, uma década, uma vida, não são mais que alguns segundos.
É necessário mais que os olhos para perceber essa mentira, compreendendo que tudo pode ser diferente e que ''Todos precisam de um espelho para lembrar quem são'', como propõe o fotógrafo Rogério Ghomes, de Londrina, no Encuentros Abiertos - Festival de la Luz, de 7 a 31 de agosto, no Centro Cultural Recoleta, de Buenos Aires, Argentina.
Além da exposição, Ghomes estará à frente do workshop ''A fotografia como elemento construtor da poética'', durante a realização do festival.
A edição 2007 do maior evento de fotografia da América Latina recebeu um público de quase 1,5 milhão de pessoas.
Ghomes já apresentou a exposição em Curitiba e Brasília, tendo a oportunidade de revelar o trabalho para curadores de diversas partes do mundo, que visitarão o festival argentino.
O fotógrafo, que participou da VI Bienal de Havana, e que possui obras no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, tem convites para um circuito internacional até 2012, incluindo países como o México e Israel.
A palavra é uma imagem impossível de prender nas mãos. Sempre escapa e nos falta na hora precisa, o que não acontece com a fotografia de Ghomes - inspiradora como se fosse literatura, que se lê, prazerosamente, entre os olhos e a alma que.
Uma maneira particular do fotógrafo se comunicar com o público, através das imagens, que se aproximam da linguagem do vídeo.
Para o curador Ricardo Resende, de São Paulo, que já fez a curadoria para exposições do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP) e do MAM, Ghomes se licencia do compromisso com a realidade dos homens comuns que se reconhecem apenas na superficilidade.
''Ghomes ultrapassa esta camada do mundo e capta não só a matéria, mas os fenômenos que se escondem nos planos de suas fotografias. Temos sede de não realidades'', comenta Resende sobre os trabalhos que serão expostos na Argentina.
Antigo mosteiro argentino, o Centro Cultural Recoleta, onde os trabalhos de Ghomes serão expostos, é um espaço escolhido para dialogar com as imagens do fotógrafo, que confessam o que o espelho se nega dizer.
''Trabalho com imagens que parecem iguais. Porém, por um instante, se diferenciam. Têm referências em Henry Cartier-Bresson, fotógrafo que falava sobre o instante decisivo de uma imagem. Isso vale mais para o fotojornalismo. Eu estou na fotografia artística. É muito diferente. O envolvimento é outro. A literatura é outra, mas temos dois olhos e apenas algumas maneiras de ver'', afirma o fotógrafo.
Ele acrescenta que ao se observarem no espelho, as pessoas sempre têm uma pré-concepção da própria imagem.
''O que eu vejo nem sempre está espelhado da mesma forma. Existe um fundo de reflexões'', completa Ghomes.
Na exposição, o público vê marinas e paisagens, bucólicas, pictorialistas, desafiando a percepção do observador, que passa pela sensação de estar vendo sempre a mesma imagem.
Porém em cada obra, as imagens que parecem se repetir foram produzidas em segundos, minutos, horas e anos de diferença - um tempo que passa e que, às vezes, acreditamos mantém as coisas e as pessoas iguais.

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