FOTOGRAFIA VERDE-AMARELA
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Que reflexões estão por trás de um ensaio fotográfico? Qual o poder da fotografia num mundo saturado de imagens? O que, afinal de contas, os craques das lentes têm a dizer sobre seu ofício?
O livro Imagens da Fotografia Brasileira 2, lançado esta semana numa rara parceria entre as editoras Senac e Estação Liberdade, tenta responder a essas e outras questões num projeto ambicioso que reúne depoimentos e fotos de 17 profissionais da área.
O título, organizado pela pesquisadora Simonetta Persichetti, chega ao público em meio a um surto editorial do gênero. Com quase duzentas páginas, dá continuidade ao levantamento da autora, que há três anos publicou o primeiro volume dedicado ao tema e com o qual faturou o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.
Na nova empreitada, as entrevistas foram feitas em momentos especiais, quando a maioria dos artistas estava finalizando algum trabalho para exposição ou publicação. Claudia Andujar, veterana profissional que fez parte da equipe da célebre revista Realidade nos anos 70, nota que pela primeira vez a fotografia está ganhando um estatuto nobre no País.
Ela está sendo reconhecida como um trabalho que vai além do puro e simples registro. Agora ela está sendo vista como um trabalho de arte diz. Há três décadas, Claudia dedica-se à causa dos índios ianomâmi, mostrando sua cultura e denunciando seu genocídio. Eduardo Simões, editor de fotografia das revistas Bravo e República, confessa que tem tentado sair do fotojornalismo e procurado desenvolver mais ensaios fotográficos.
O fotojornalismo tem uma esquizofrenia interna salienta. Ele está preocupado com o momento, enquanto o fotógrafo está interessado em fazer uma imagem que fique como testemunha de um acontecimento. O primeiro momento não interessa. O que importa é o que a imagem representa. Para Luis Humberto, que já trabalhou nos mais importantes órgãos da imprensa nacional, o fotojornalismo vive um momento de decadência generalizada com a diluição e a extinção crescentes da reportagem, da cobertura e do ensaio.
Esses gêneros são autorais. O seu desaparecimento faz desaparecer também as pessoas. Hoje em dia, é muito difícil você ser um talento do fotojornalismo sublinha. Ed Viggiani, por sua vez, lembra que a fotografia sempre ficou em segundo plano na imprensa. Não se tem um conhecimento e uma valorização de um discurso fotográfico, a fotografia como linguagem própria. Hoje mesmo se dá mais preferência aos gráficos do que às fotos acredita ele, para quem os melhores profissionais do ramo da nova geração encontram-se em cidades das regiões Norte e Nordeste como Recife, Fortaleza e Belém.
Juan Esteves, que chegou à fotografia por meio das artes plásticas, faz críticas à sua própria classe. Afirma que há poucos projetos consistentes entre os fotógrafos que expõem em galerias. As pessoas têm medo de se posicionar quanto à originalidade do trabalho, porque lhes falta vocabulário diz. Não sabem se é moderno, se é novo, se traz alguma contribuição. Infelizmente, a maioria das pessoas que lidam com este mercado não têm nenhuma cultura fotográfica.
O diagnóstico exclui obviamente Miguel Rio Branco, uma unanimidade entre os bambambãs da câmera. Expondo regularmente no exterior, ele diz que a fotografia conquista cada vez mais espaço no circuito de galerias dos Estados Unidos, transformando-se inclusive numa moda do mercado de arte. O motivo, segundo ele, é que os americanos têm uma visão mais crua e direta, enquanto na Europa existe uma visão mais sofisticada, herdada de sua tradição pictórica.
O livro traz ainda depoimentos de Ella Durst, Hélio Campos Mello, Paula Sampaio, Manuel da Costa, Arnaldo Pappalardo, Pedro Karp Vasquez, Celso Oliveira, Eustáquio Neves, Juca Martins, Rosa Gauditano e Tiago Santana.


