A fotografia contemporânea mostra a cara na VI Semana de Arte de Londrina, de maneira tímida. A exposição - que fica até 5 de novembro na Av. Celso Garcia Cid, 1342 - reúne poucos representantes da vertente fotografia/artes plásticas e minguados trabalhos de cada um. A quantidade diminuta não exclui a qualidade das propostas. Nesse conjunto pictórico, a fotografia é apenas o ponto de partida para interferências visuais, composições plásticas e sensoriais.
O processamento de imagens originais representa uma atitude de inconformismo. Os artistas não se acomodam com a simples ação predadora da fotografia. Apresentam propostas, muitas vezes, inacabadas propositadamente. Alguns fotógrafos tornaram-se especuladores da fotografia, abrindo os canais, fustigando os sentidos, exigindo do olhar. Vitimados pelas inquietações, eles ofertam versões de segundas realidades.
As imagens reproduzidas pelas lentes não saciam mais os olhares dos fotógrafos/artistas. Eles suplicam por retrabalhar o resultado fotográfico, deglutindo a imagem. O conjunto reunido pela curadoria da VI Semana de Arte de Londrina pode ser considerado subversivo, tanto na proposta de se aglutinar visões distintas sobre o corpo humano, como nas releituras da geografia corporal. O corpo não é objeto apenas.
Nesse contexto subversivo, Fernanda Magalhães esmaga suavemente o estigma da forma superlativa. O suporte utilizado nas ‘‘Classificações Científicas da Obesidade’’ confere leveza à fotografia em tamanho natural, em que apenas subsiste o contorno do corpo, suspenso por fios de náilon.
O apelo visual de Rosângela Rennó revela a memória da pele dos detentos da Penitenciária do Estado de São Paulo no início do século. A ampliação nos aproxima da textura da pele, mas também confere outros significados ao terreno epidérmico, aparentado com o solo lunar. Eustáquio Neves - com a série Navio Negreiro - faz fotografia investigativa, resgatando suas raízes africanas e joga com elementos químicos para obter resultados plásticos de grande impacto.
O filtro azul utilizado por Hugo Denizart em ‘‘Engenharia Erótica’’ instiga e obriga ao público a se fixar mais demoradamente na imagem de um travesti, mostrando os atributos da natureza. A força do azul suaviza o agressivo. Os anjos de Edouard Fraipont ficaram granulados na ampliação, remetem a registros furtivos de espectros de outra dimensão. O fotógrafo instaura a dúvida sobre os limites da imagem. Realmente são fotografias?
Mesmo quando a proposta resvala no convencionalismo, como a série ‘‘Topografia Imaginária’’, de Vicente de Mello, os fragmentos corpóreos mimetizam a natureza, confundindo o corpo com rochas e troncos de árvores. Mello amplia a dramaticidade da ação do tempo sobre a pele. Orlando Maneschy desafia o olhar humano, ao apresentar garotos nus em reproduções quase invisíveis. Ele retrata em ‘‘Homens de Sangue’’ o grafismo que se vale das próprias hemácias para realização da obra. O jogo entre o efêmero e eterno integra a proposta de Flavya Mutran. Suas ‘‘Pandoras de Água’’ são fotos volúveis, que mudam diante do movimento que o espectador realiza na caixa fotográfica.
Uma das propostas mais instigantes da Semana de Arte pertence à dupla Bira Senatore e Janete El Haouli. Ao contrário da maioria dos trabalhos que esfacelam identidades, Bira insere a paisagem humana, reunindo olhares desafiadores. Infinitas são as possibilidades da estética facial humana. Seria a beleza apenas simetria? As fotos respondem. Na dobradinha com Janete El Haouli, os rostos inseridos nas paisagens sonoras, de início, aparentam inocência, depois de algum tempo, passam a ser devoradores. Janete ouve filigranas sonoras onde os ouvidos comuns identificam ruídos.
A VI Semana de Arte de Londrina instiga o olhar, mas não sacia. Seria preciso um número maior de trabalhos para tornar mais representativas as tendências e concepções da nova geração de artistas/fotógrafos que não se contenta apenas com o click do registro fotográfico.

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