Fotografia, paixão e profissão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de maio de 2009
Edinelson Alves<br> Especial para a Folha 2 
Como o poeta chileno Pablo Neruda, a fotógrafa norte-americana Lily Solmssen Moureaux, 68 anos, também poderia declarar Confesso que vivi. Ela trabalhou em 33 países, juntamente com seu marido, Ghislain F.L. Moureaux, vinculados a organismos internacionais como a ONU, Unicef e Cruz Vermelha, e diz que sua grande preocupação continua sendo ajudar os mais necessitados.
Ainda sentindo a perda recente de seu companheiro de tantas jornadas, Lily deixou, por três semanas, a correria de Nova York para rever familiares em Rolândia. Ela esteve hospedada na fazenda Bimini, área cercada de verde, a 7 km do centro da cidade, onde o ambiente é referência de preservação. Aliás, é ali que a família Steidle realiza programas educativos. Eu também tenho uma paixão pela natureza. Passar uns dias nessa fazenda é um contraste com o cotidiano de Nova York, compara.
A última vez que Lily esteve no Norte do Paraná foi há mais de 25 anos. Ela disse que percebeu uma grande diferença no meio rural, com a substituição do café pela soja. Eu me sinto afortunada por ter registrado o espaço físico daquele tempo com maiores áreas de mata. Poder experimentar esse remanejamento da terra. É o balanço entre a vida e a natureza, e é isso que me move. A época do café me impressionou muito. Ainda hoje quando bebo uma xícara de café, penso nas colheitas e nas pessoas que trabalhavam aqui, confessa.
Em Rolândia, Lily realizou um ensaio fotográfico com moradores do distrito do Bartira dentro de um projeto local chamado Meu Ambiente. Com habilidade, extraiu de pessoas comuns momentos expressivos. Depois, dentro de uma proposta de valorização daquela gente, apresentou o resultado desses flagrantes para a comunidade. Foi um impacto muito positivo.
Lily nasceu em Newark (Nova Jersey), do outro lado do rio Hudson, na divisa com Nova York. Ela conta que sua paixão pela fotografia começou aos 7 anos quando visitou seus avós na Suíça. Minha tia era uma excelente fotógrafa. Naquele Natal ganhei um kit da Kodak do meu pai e nunca mais parei de fotografar. O hobby infantil virou paixão, profissão e seu ganha-pão. No ensino médio eu já fotografava para o jornal da escola. Depois fiz cursos de aperfeiçoamento na Escola de Arte da Filadélfia, antes de arranjar meu primeiro trabalho na extinta Modern Photography Magazine, recorda.
Ela garante não esquecer o inverno inteiro que passou na Suíça fotografando esquiadores. Depois conseguiu emprego na Biblioteca Fotográfica do Ministério Internacional do Trabalho em Genebra. Lá pude aprender muita coisa. Tive a sorte de estar na hora certa no lugar certo, observa.
Das muitas fotografias em cenários diferentes de vários países, a mais marcante para ela foi a de um esquiador com deficiência visual feita na Suíça. Aliás, com sua sensibilidade, especializou-se em registrar o cotidiano de portadores de deficiências. Ela procura flagrantes dessas pessoas que normalmente vivem esquecidas pela sociedade.
Nos Estados Unidos, onde as quatro estações do ano são bem definidas, Lily sempre busca explorar a luz própria de cada período. No verão, gosto de fotografar barcos nas águas brilhantes; na primavera, busco registrar a poesia em cada botão de flor; no outono, a atenção é voltada para a mudança de cores da natureza; no inverno, o que mais me marcou foi o trabalho com deficientes visuais na Suíça.
Além de fotógrafa, Lily foi tradutora em algumas ocasiões. Seu marido era um terapeuta encarregado de diagnosticar as condições de saúde dos refugiados. Foi trabalhando em conjunto que o casal percorreu 33 países durante 10 anos. Tudo começou no campo de refugiados de Viena, na Áustria.
Lily conta que viveu uma experiência trágica em 1975, quando trabalhava para a Cruz Vermelha. Foi no Deserto do Saara. Eu tinha visto fotos de crianças desnutridas, mas presenciar aquelas pessoas numa condição extrema, aguardando a chegada de comida, foi muito chocante. Viajamos naquele período pelo Senegal, Nigéria, Quênia, entre outros países. Anos depois, trabalhando na ONU, tivemos experiências dramáticas no Nepal e no Paquistão.
Aposentada há dois anos, ela agora atua como fotoarquivista no Comitê Internacional de Resgate em Nova York, organização que oferece ajuda humanitária em 42 países. Em Viena nossa função era enviar refugiados. Agora eu estou recebendo refugiados. Otimista com o novo presidente dos Estados Unidos, ela conta que levou 17 refugiados de Nova York para a posse de Barak Obama em Washington.


