FOTOGRAFIA - Eterno lavrador de imagens
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terça-feira, 04 de março de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Somente agora Haruo Ohara (1909-1999) chegou à eternidade. Quase 10 anos depois da morte do imigrante japonês, que se tornou um dos grandes fotógrafos do Brasil ao registrar o que estava ao alcance da própria vida, as mais de 20 mil imagens produzidas por ele foram doadas pela família ao Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro - o que abre as portas da imortalidade para a obra do gênio.
No segundo semestre, como parte das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa, o IMS realizará uma exposição com uma série de fotos representativas do acervo de Haruo, no Centro Cultural Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), na Avenida Paulista, em São Paulo.
Com a doação pela família, Haruo ficará em um acervo ao lado de Ferrez e de outros nomes da fotografia como Claude Lévi-Strauss e Hans Gunter Flieg. ''Tenho a sensação de um dever cumprido. Era o mínimo que poderíamos fazer para não deixarmos a história dele morrer'', avalia o neto do fotógrafo, Saulo Ohara, que desde 1998 era curador do acervo.
O IMS é mantido pelo Unibanco e tem por finalidade exclusiva a promoção e desenvolvimento de programas culturais nas áreas de fotografia, literatura, artes plásticas e música brasileira.
Quase 10 anos depois da morte do fotógrafo, que chegou no Brasil em 1927, não só as 20 mil imagens dele serão eternizadas pelo IMS, como toda a história do pioneiro nos seus diários, cadernos de anotações, documentos pessoas, salvo-conduto, cartas, os óculos, a caneta, biblioteca de fotografia e o passaporte que o trouxe para Londrina.
''O Instituto Moreira Salles se interessa por conjuntos significativos da fotografia brasileira para que sejam preservados inteiramente. Dentro desse contexto, a obra de Haruo é muito significativa pela qualidade, importância de sua preservação e seu melhor entendimento fotográfico'', avalia Sérgio Burgi, coordenador da Área de Fotografia do Instituto Moreira Salles.
Haruo está chegando à eternidade dos que nunca morrem pela representatividade da obra, sem ao menos sair do quintal de casa, já que as suas fotos não alçavam vôos ambiciosos, registrando a família, os amigos e a própria alma, através dos auto-retratos.
Burgi destaca que materiais, como os de Haruo, em bases de filmes plásticos, após 40 ou 50 anos de fabricação, correm riscos de deterioração. ''A partir da doação das fotos de Haruo ao nosso acervo, já entramos com recursos de controle ambiental para que os processos não progridam. A nossa área de preservação de fotografia é uma das melhores da América Latina'', afirma Burgi.
Ele aponta alguns indicativos claros de deterioração de alguns negativos, apesar da família manter o acervo em ambiente climatizado. ''A produção em cores de Haruo também apresenta alguns problemas, como a deterioração dos corantes. Num diagnóstico inicial, o estado geral é, digamos, razoável'', afirma Burgi, ressaltando que um conjunto significativo das imagens deverão ser colocadas em setembro no site do instituto, mas que o acervo total poderá estar disponível apenas em meados de 2010.
''No segundo semestre teremos à disposição um acervo de 1.000 a 1.500 imagens. Isso é bastante representativo sobre o trabalho dele. O projeto todo prevê levantarmos outras informações, que nos levem aos dados específicos das imagens'', afirma Burgi.
Para Saulo, que também é fotógrafo e que aprendeu os primeiros segredos desse amor eterno com o avô, Haruo segue agora o seu destino. ''A doação da fotos foi uma opção da família em respeito aos princípios que Haruo deixou. Nunca quis fazer dinheiro com as fotos. Ele era um lavrador'', conclui Saulo ao que podemos acrescentar: um eterno lavrador de imagens.


