Caymmi cantou, Amado descreveu, Carybé pintou, mas foi Verger quem retratou melhor a Bahia ao menos a idílica. Através de suas lentes, deitou olhar apaixonado sobre a arquitetuta, cenas de rua, religiosidade, gente ilustre, gente do povo, enfim em tudo o que o embevecia. A declaração de amor do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902-1996) à terra que o acolheu e que por ele escolhida para viver pode ser conferida em imagens tão belas quanto mágicas, reunidas em ''Retratos da Bahia''. Em luxuosa reedição, traz as mesmas 251 fotos em preto-e-branco que, em 1980, através da Editora Corrupio, marcavam a primeira publicação no Brasil daquele que orgulhosamente ostentou o título de o ''mais baiano dos franceses''. As imagens foram captadas entre 1946 e 1953.
A nova edição chega a público com tiragem de dois mil exemplares e aval do Fundo Cultural da Bahia, o Funcultura. Por trás da empreitada, a fotógrafa e editora Arlete Soares. Que, vejam só a ironia, 25 anos atrás viu muitas portas e bolsos se fecharem quando tentou publicar um livro de fotos de Verger. ''O Brasil era muito mais racista naquela época. Um livro com fotos em preto-e-branco e com muitas imagens de negros não despertou o interesse comercial das editoras e patrocinadores'', lembra. O que fez ela? Juntou-se aos amigos Arnaldo Grebler, Enéas Guerra e Cida Nóbrega e fundou uma editora, a Corrupio. ''Tive vergonha de contar a ele que não havia conseguido uma editora. Como havia prometido que faria, esse foi o único jeito de cumprir minha palavra'', conta. Atualmente , a Editora Corrupio tem dezenas de títulos de Verger, entre eles ''Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos Entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos'' (1987), além de publicações de outros autores.
A amizade nasceu por intermérdio do escritor Jorge Amado, cujo livro ''Jubiabá'' foi responsável por Verger aportar na Bahia no dia 5 de agosto de 1946 ele havia lido a versão em francês e se encantou. Em 1968, quando fazia doutorado na França, Arlete conheceu Verger que, depois de algumas correspondências, a convidou para passar uma temporada na Nigéria onde atuava como professor visitante da Universidade de Ifé.
Amizade, afeição e confiança solidificadas, o etnólogo a autorizou a resgatar fotos que ele havia deixado na França, na casa de amigos, durante a Segunda Guerra Mundial. ''Eram 150 quilos de negativos, inclusive feitos em chapas de vidro que enviei de Paris a Salvador'', conta. No total, o acervo de Verger é composto de 62 mil negativos, dos quais 17 mil só com imagens da Bahia.
Na volta ao Brasil, Arlete e companheiros se lançaram à árdua tarefa de publicar o livro de fotos com fundos próprios. O pesquisador acompanhou todo o processo, que inicialmente começou com mais de 800 fotos que acabaram sendo reduzidas a 251 . ''Ele (Verger) interferiu bastante, afinal éramos marinheiros de primeira viagem'', lembra. Depois de muita labuta, ''Retratos da Bahia'' saia finalmente das intenções e ganhava as prateleiras. ''Para mim é, sobretudo, um livro de amor. É uma viagem séria, estética e amorosa pela Bahia'', salienta Arlete. Apesar de outras publicações de peso, Verger sempre considerou a publicação sua predileta.
A nova edição chega com pequenas modificações sequência de fotos e diagramação mais arrojada. A capa agora mostra um pescador escalando o mastro de um barco no Porto dos Saveiros. Além dos prefácios originais do pintor Carybé e de Jorge Amado, há textos de Arlete Soares e Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, criada pelo fotógrafo e etnológo em 1988, com o intuito de preservar o acervo acumulado em mais de 50 anos de viagem de pesquisas a quase todos os cantos do mundo.
Há também uma narrativa longa, detalhada e apaixonada de Pierre Verger. O relato é quase cinematográfico, cheio de nuances e contornos como as fotos no livro impressas. Verger escreve tão bonito... Nas fartas linhas, descreve, por exemplo, a religiosidade daquele povo para ele tão especial. Quando tomou contato com o candomblé, acreditou ter encontrado a fonte vital dos baianos e, por esses e outros motivos pessoais, passou a ser um estudioso do culto aos orixás.
A obstinação o levou à Africa através de uma bolsa de estudos para estudar os rituais das divindades. Isso, em 1948. Lá viu seu renascimento, como chegou a afirmar, e recebeu o nome de Fatumbi, ''nascido de novo graças ao Ifá'' a palavra refere-se ao sistema de adivinhação utilizado no candomblé. Pierre 'Fatumbi' Verger: o mito é tão grande quanto sua importância como pessoa e profissional. ''Eu aprendi muitas coisas com Verger. Além do humor agudo ele era um tremendo observador, era como um 'scanner'. Uma coisa impressionante era a determinação. Era, sobretudo, um homem muito educado. Dava prazer conviver com ele'', atesta Arlete Soares, 65 anos. Aliás, ouvir as suas reminiscências é comovente: precisam ser colocadas no papel Arlete se esquiva.
Emblemático, ''Retratos da Bahia'' precisa ser visto com reverência. Muita reverência!

Serviço
- Livro ''Retratos da Bahia'', de Pierre Veger. Editora Corrupio. Preço: R$ 220,00. O livro, bem como outras publicações, pode adquirido também pelo site www.corrupio.com.br

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