Fortalezas compõem roteiro histórico no Rio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de agosto de 2004
Fabiana Cimieri<br> Agência Estado 
Rio - Apesar de não fazerem parte do roteiro turístico oficial da cidade do Rio, os fortes e fortalezas contam cinco séculos de história do País e a maioria delas pode ser visitada. Apesar da pouca divulgação, o Exército garante que a intenção é levar os civis para dentro do quartel, para que todos possam usufruir de ângulos inusitados dos principais cartões-postais da cidade.
Ainda que precária, a manutenção é feita pela própria corporação, pois o governo federal não possui um programa específico para a manutenção de 109, das 450 fortalezas brasileiras remanescentes. ''O problema de nossa falta de auto-estima vem da falta de conhecimento da própria história. Esses fortes mostram o esforço que os portugueses fizeram para manter a unidade territorial e a luta pela nossa soberania'', afirma o superintendente da Fundação Cultural do Exército (Funceb), general Gílson de Aguiar .
Há cinco anos, segundo ele, a Funceb criou um projeto de revitalização das fortalezas, mas admite que estão tendo dificuldades para divulgar o projeto e encontrar patrocinadores. Até agora, os únicos investimentos no Rio foram feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que investiu R$ 806 mil na reforma parcial da Fortaleza de Santa Cruz (Niterói, Região Metropolitana) e R$ 700 mil na restauração do Forte São José, na Fortaleza de São João, na Urca (zona sul).
O sonho do general Aguiar é reconstruir o cais do Forte São José e reativar o já existente na Fortaleza de Santa Cruz, para oferecer aos turistas um passeio de barco, que partiria da Praia do Flamengo e iria aos dois fortes, que ficam frente a frente, um em cada lado da Baía de Guanabara.
O casal de professores canadenses, Jan Martin e Sandra Montreal, que visitaram Santa Cruz na semana passada, elogiou a manutenção e o atendimento feito pelo Exército brasileiro, mas achou ''absurdo'' que a instituição não receba apoio financeiro de nenhuma esfera de governo. ''Sabíamos quase nada sobre a história do Brasil e sairemos daqui sabendo, não apenas sobre o passado da Colônia e do Império, mas também sobre o período histórico recente, como a Era Vargas e a Ditadura Militar'', contou Sandra.
As fortalezas fluminenses começaram ser construída no século 16, por portugueses e franceses, que dominavam a área da Fortaleza de Santa Cruz e a Ilha da Laje, no meio da baía. Os fortes estavam estrategicamente localizados para defender o País das tentativas de invasão francesas e holandesas do século 17, de piratas e ingleses, nos séculos 18 e 19, e para conter movimentos rebeldes no final do século 19 e início do século 20, como a Revolta da Armada, quando parte da Marinha se amotinou contra o Exército, e na Revolução Tenentista, quando alguns tenentes se rebelaram contra o governo do então presidente Epitácio Pessoa.
A Fortaleza de Santa Cruz, principalmente, foi usada como prisão no período imperial, na Era Vargas e no regime militar. Até hoje, entretanto, os militares não gostam de relembrar esse passado sombrio. O pavimento mais baixo de Santa Cruz é proibido aos visitantes. Além de masmorras e solitárias, há um ''Paredão de Fuzilamento''. Ao lado, uma fonte artificial que, segundo as inscrições, serviria para escoar o sangue dos mortos.
''Antigamente essa área fazia parte da visitação, mas o comandante mandou fechar porque as pessoas mais sensíveis saíam daqui muito impressionadas. Já vi gente sair chorando'', disse o capitão Luiz Gustavo, que guiou a reportagem pela Fortaleza.
Apesar do esforço do Exército para preservar séculos de história vivido entre os muros das fortalezas, o que se observa são canhões sendo carcomidos pela maresia, infiltrações nas paredes e pinturas improvisadas que descaracterizaram a estrutura original.
A superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan) no Rio, Taís Bessoto de Mendonça, afirmou que não cabe à autarquia patrocinar reformas e restaurações, mesmo nas que foram tombadas. ''Não temos formatado um programa. A obrigação de preservar é do proprietário, no caso, o Exército. O que fazemos é acompanhar e fiscalizar as obras, como as que foram feitas sob patrocínio do BNDES'', explicou ela.


