Forró do bom
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de setembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Não é de hoje que corre por aí uma história que o forró seria o ritmo do próximo verão. Vários verões se passaram e o que mais se ouviu - e pelo jeito se ouvirá no próximo - nas rádios foram - e serão - pagodinhos e axé-music. Nada da oxent-music. Pelo menos no Sul do País. Mas enquanto a maioria das emissoras de Frequência Modulada (e até as Ams) quase que ignora o xote, o baião, o xaxado e afins, proliferam Brasil afora casa de shows que arrebatam verdadeiras multidões doidinhas por mexerem os quadris ao som da zabumba, do triângulo, da sanfona e afins.
Bem, independente de previsões meteorológicas-musicais, a pedida para quem gosta de forró é o especial que o Multishow, canal de TV por assinatura, exibe hoje, às 21h30, com reprise no domingo, às 12h30.
Trata-se da Casa do Forró que reúne artistas de várias gerações e estilos que, em duetos, cantam clássicos do gênero. O especial foi gravado no espaço Polygram Up e rendeu um CD, homônimo, que já chegou ao mercado. E pelo jeito vai seguir o mesmo sucesso de vendagem a exemplo de projetos da mesma natureza, também realizados em parceria pelo Multishow com a gravadora Polygram, como Casa do Samba 1 (96), Casa do Samba 2 (97) e Casa da Bossa (97).
Pois muito bem. Entre o especial a ser visto e o disco a ser ouvido há uma diferença razoável. O disco teve direção artística de Robertinho do Recife. Já o show, gravado ao vivo no espaço Polygram Up, teve direção geral de Mário Meirelles. É repleto de depoimentos das duplas - algumas inusitadas, como aliás se propõe o projeto Casa - antes de cantarem sucessos. A simplicidade toma conta do ambiente - do cenário até a movimentação das câmeras e até mesmo a performances de alguns artistas.
A platéia, mostrada vez ou outra, não se deixou levar pelo que deveria ser uma festança contagiante. Parece até um grupo de pessoas que estaria desempenhando o papel de claque já que se trata de um disco ao vivo.
Casa do Forró, o especial, tem pouco mais de 50 minutos de duração. A primeira dupla a subir no palco é Frejat e Lenine tocando e cantando Pagode Russo (Luiz Gonzaga-João Silva). A gente vê um País tão precioso em termos de diversidade de idéias, linguagens e possibilidade que seria uma burrice ficar alheio a tudo o está acontecendo em volta da gente- justifica-se Frejat, em depoimento.
Seguem-se outras 13 apresentações. Em termos de parceria e de interpretação Casa do Forró é quase irrepreensível apesar de cometer algumas injustiças. Um exemplo foi não ter convidado Carmélia Alves, a eterna rainha do baião, para cantar com Daniel Gonzaga, neto de Gonzagão, já que o espírito do projeto é unir um cantor do estilo com outro pouco apegado. Detalhes, mas detalhes importantes.
Se por um lado quase não há o que se repreender nos duetos, por outro há de se questionar o comportamento cênico de alguns artistas. Ora, é um especial para televisão. É uma vitrine. Um bom exemplo é Reinaldo, vocalista do Terrasamba, que ao lado da bela Silmara, cantora do grupo Limão com Mel, não se dignou a decorar a letra de Derramaro o Gai. Resultado, enquanto Silmara deu e bem conta do recado, o companheiro ficou marchando em frente à partitura com a letra.
Amelinha (até que enfim repuseram-na à mídia) também recorre à letra, com direito a óculos de leitura e tudo o mais. Mas apesar disso ela consegue imprimir suingue e dignidade a Dez mandamentos do Amor (Dadá di Moreno-Jeová de Carvalho) ao lado de Maurício Mattar, que nem mesmo num ambiente de forró consegue deixar de lado a pose de galã. Posasse, então, de galã de quermesse, sei lá...
Mas há momentos fantásticos. Encontros fantásticos. A começar por Marinês, a grande dama do forró, referência para artistas de muitos quilates, que canta e encanta em Bate Coração (Cecéu) junto com Elymar Santos. Patrícia Marx e Nando Cordel fazem uma bonita apresentação com a bela Sabiá (Luiz Gonzaga-Zé Dantas). Bonito entrosamento vocal e performático. Zé Ramalho e Paulinho Moska idem, em Pedras que Cantam (Dominguinhos-Fausto Nilo).
Na seção surpresas, duas. A primeira é o dueto entre Ivete Sangalo e Geraldo Azevedo cantando, até que bem, De Volta Pro Aconchego (Dominguinhos-Nando Cordel). Em determinado trecho os dois tentam fazer segunda voz. Não deu. Em seguida conseguem e tudo transcorre muito bem. A outra surpresa são os grupos The Fevers (sim, ainda existe) e Brucelose (isso é nome de grupo musical, Deus meu?) cantando Frevo Mulher (Zé Ramalho).
A lenga-lenga prossegue, a falta de carisma do vocalista do The Fevers é assombrosa até que resolvem buscar Amelinha e Zé Ramalho para cantar junto. A música retoma o brilho que sempre teve e a claque, desculpe, o público finalmente se rende e aplaude brilhantemente. Agora, Alcione cantando Forró do Xenhenhém com os autores, Antonio Barros e Cecéu, é o melhor momento do especial. Avacalhação total? Pois não, Genival Lacerda e Falcão cantam Forró Cheiroso (Miraldo Aragão-Clemilda) em que os dois fazem questão de frisar - e bem - o trecho talco no salão, talco ou talcozinho no salão. Hum!!
Falta sentida mesmo foi de Elba Ramalho. Que deveria ter gravado Espere Por Mim Morena (Gonzaguinha) junto com Chico César. Uma pena porque Elba no palco é uma coisa de louco. Mas o dueto dos dois paraibanos consta do disco. Fica assim: pode o especial ter lá suas falhas, mas Casa do Forró, o disco, consegue empolgar. Mesmo que a fórmula das tais Casa de Alguma Coisa já comece a ficar um pouco manjada.
Casa do Forró, especial do Multishow (TV por assinatura, canal 18). Hoje, às 21h30. Reprise no domingo, às 12h30.


