FORNADA INDIE
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sexta-feira, 13 de julho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Os porões alternativos andam movimentados. Uma nova fornada de CDs chega às lojas trazendo trabalhos de quatro bandas indies, assim chamadas por usarem guitarra, baixo e bateria e não serem comerciais o suficiente para habitar FMs e programas de auditório da TV.
A tarja, cunhada pela imprensa inglesa na década passada, foi incorporada pelo vocabulário pop brasileiro em substituição ao já enterrado rótulo guitar bands. O som dos grupos, que é o que interessa, invariavelmente ecoa tendências em voga no Reino Unido e nos Estados Unidos. Não por acaso, a maioria canta em inglês.
A banda paulistana Sala Especial escapa à regra. Privilegia a música instrumental em composições calmas que mesclam pop retrô sessentista, jovem guarda, bossa nova e trilha de filme pornô italiano com ênfase num órgãozinho de boate de timbre totalmente inspirado no tecladista Lafayette. É o que chamam por aí de easy listening (ou lounge music).
Depois de gravar dois CDs-demo (Aventuras Esteofônicas Vols. 1 e 2), o grupo acaba de sair do estúdio com o mini-CD Hi-fi Stereo, que reúne apenas quatro faixas, quatro pérolas do kitsch. Na última, Orbital Fuzz, empurram o teclado para o fundo e colocam uma guitarra à frente para ranger acordes de garagem.
O lançamento é da Bizarre, loja paulistana que estréia como gravadora. O outro lançamento do selo é o CD Nas infecções mais graves, a posologia pode ser aumentada para 100 angstrons (2 comprimidos de 50), da banda Space Invaders. Aqui, as guitarradas nervosas e os vocais esquizofrênicos remetem ao Pixies, banda-emblema para essa geração. As letras parecem cantadas em portunhol, mas soam como grunhidos indecifráveis.
Além dos dois títulos, a Bizarre vai apresentar brevemente outras bandas ao público, como Monokini, Golden Shower e Silvestre & Zorak. Uma prova de que não há marasmo no mercado paralelo aos dos tubarões da indústria fonográfica. No Rio de Janeiro, é a mesma coisa. Há anos, o selo Midsummer Madness vem alimentando o circuito indie com fanzines, shows, festivais, lançamentos próprios e distribuição de demos e CDs de todo o país.
Um novo pacote acaba de pular dos fornos. Um dos destaques é o terceiro álbum da banda Pelvs, Peninsula, que sucede a Peter Greenaways Surf (1993) e Members to Sunna (1997). A exemplo deste último, o grupo busca enriquecer suas melodias singelas com arranjos para sax, piano e trumpete. Aqui e ali respingam influências da banda americana Yo La Tengo, especialmente nas faixas Backdoor e The New One, com seus vocais sussurrados e guitarras entre a estridência e a suavidade melancólica.
O ex-integrante Dodô e Beatriz Lamego (do Stellar, outro grupo do selo) fazem participações especiais no disco. Sem a mesma ambição instrumental, o grupo Astromato é o outro lançamento do Midsummer Madness. A banda é de Campinas (SP), onde foi fundada com o nome Weed. Na época cantava em inglês, como todas as indies. Depois trocou o nome e adotou o português nas composições.
Seu CD-debut Melodias de Uma Estrela Falsa decalca o pop britânico de bandas como Ride e Teenage FanClub. Duas letras são adaptações livres de poemas de Fernando Pessoa, o que revela algum verniz literário em seu projeto musical. Astromato foi assunto de duas páginas na revista Showbizz de abril. Para alguns críticos afoitos, é a principal revelação da temporada.
Mas a cena está sempre apresentando novos nomes. Outras bandas estão lançando seus trabalhos. No mês passado, a cidade de Sococaba (SP) reuniu a fauna no festival Circadélica. Das guitarradas produzidas ali, deverão ser lançados um CD e um vídeo, ambos gravados ao vivo com material extraído das apresentações.


