Os porões alternativos andam movimentados. Uma nova fornada de CDs chega às lojas trazendo trabalhos de quatro bandas ‘‘indies’’, assim chamadas por usarem guitarra, baixo e bateria e não serem comerciais o suficiente para habitar FMs e programas de auditório da TV.
A tarja, cunhada pela imprensa inglesa na década passada, foi incorporada pelo vocabulário pop brasileiro em substituição ao já enterrado rótulo ‘‘guitar bands’’. O som dos grupos, que é o que interessa, invariavelmente ecoa tendências em voga no Reino Unido e nos Estados Unidos. Não por acaso, a maioria canta em inglês.
A banda paulistana Sala Especial escapa à regra. Privilegia a música instrumental em composições calmas que mesclam pop retrô sessentista, jovem guarda, bossa nova e trilha de filme pornô italiano com ênfase num órgãozinho de boate de timbre totalmente inspirado no tecladista Lafayette. É o que chamam por aí de easy listening (ou lounge music).
Depois de gravar dois CDs-demo (‘‘Aventuras Esteofônicas Vols. 1 e 2’’), o grupo acaba de sair do estúdio com o mini-CD ‘‘Hi-fi Stereo’’, que reúne apenas quatro faixas, quatro pérolas do kitsch. Na última, ‘‘Orbital Fuzz’’, empurram o teclado para o fundo e colocam uma guitarra à frente para ranger acordes de garagem.
O lançamento é da Bizarre, loja paulistana que estréia como gravadora. O outro lançamento do selo é o CD ‘‘Nas infecções mais graves, a posologia pode ser aumentada para 100 angstrons (2 comprimidos de 50)’’, da banda Space Invaders. Aqui, as guitarradas nervosas e os vocais esquizofrênicos remetem ao Pixies, banda-emblema para essa geração. As letras parecem cantadas em portunhol, mas soam como grunhidos indecifráveis.
Além dos dois títulos, a Bizarre vai apresentar brevemente outras bandas ao público, como Monokini, Golden Shower e Silvestre & Zorak. Uma prova de que não há marasmo no mercado paralelo aos dos tubarões da indústria fonográfica. No Rio de Janeiro, é a mesma coisa. Há anos, o selo Midsummer Madness vem alimentando o circuito indie com fanzines, shows, festivais, lançamentos próprios e distribuição de demos e CDs de todo o país.
Um novo pacote acaba de pular dos fornos. Um dos destaques é o terceiro álbum da banda Pelvs, ‘‘Peninsula’’, que sucede a ‘‘Peter Greenaway’s Surf’’ (1993) e ‘‘Members to Sunna’’ (1997). A exemplo deste último, o grupo busca enriquecer suas melodias singelas com arranjos para sax, piano e trumpete. Aqui e ali respingam influências da banda americana Yo La Tengo, especialmente nas faixas ‘‘Backdoor’’ e ‘‘The New One’’, com seus vocais sussurrados e guitarras entre a estridência e a suavidade melancólica.
O ex-integrante Dodô e Beatriz Lamego (do Stellar, outro grupo do selo) fazem participações especiais no disco. Sem a mesma ambição instrumental, o grupo Astromato é o outro lançamento do Midsummer Madness. A banda é de Campinas (SP), onde foi fundada com o nome Weed. Na época cantava em inglês, como todas as indies. Depois trocou o nome e adotou o português nas composições.
Seu CD-debut ‘‘Melodias de Uma Estrela Falsa’’ decalca o pop britânico de bandas como Ride e Teenage FanClub. Duas letras são adaptações livres de poemas de Fernando Pessoa, o que revela algum verniz literário em seu projeto musical. Astromato foi assunto de duas páginas na revista ‘‘Showbizz’’ de abril. Para alguns críticos afoitos, é a principal revelação da temporada.
Mas a cena está sempre apresentando novos nomes. Outras bandas estão lançando seus trabalhos. No mês passado, a cidade de Sococaba (SP) reuniu a fauna no festival Circadélica. Das guitarradas produzidas ali, deverão ser lançados um CD e um vídeo, ambos gravados ao vivo com material extraído das apresentações.

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