São Paulo - Alguns personagens de novelas têm deixado a sensação de serem velhos conhecidos do público. Isso porque passam por situações já encenadas pelos mesmos atores em tramas passadas, exibidas recentemente na TV. Sem se incomodar com o repeteco, o elenco defende a identidade de cada papel.
Um exemplo é o Jacques, de Júlio Rocha, em "Amor à Vida" (Globo). Ele acaba de se envolver com a médica Pilar (Susana Vieira), que é mais velha do que ele. "Mas o nível cultural dele é distante do que tinha o Enzo", diz o ator, referindo-se ao seu papel em "Fina Estampa" (Globo, 2011). A comparação é inevitável. Na novela de Aguinaldo Silva, Rocha fez par com a igualmente veterana Renata Sorrah, que também vivia uma médica.
Já Kiko Pissolato, o Maciel, vive seu segundo comparsa de vilão no horário nobre - Manolo, em "Insensato Coração" (Globo, 2011), era o braço direito do psicopata Léo (Gabriel Braga Nunes). "Eles são os ouvidos do vilão, papéis que sempre crescem. De motorista do Félix e namorado da Valdirene virei chofer da Pilar", celebra, citando os papéis de Mateus Solano e de Tatá Werneck.
Igualmente, Tânia Khalil e Domingos Montagner revivem um triângulo amoroso em "Joia Rara", depois do drama vivido em "Salve Jorge" (Globo, 2012).

Talento e ibope
Autores de novelas dizem ser guiados pela intuição e pelo talento dos atores na hora da escolha do elenco. Apesar disso, especialistas e preparadores reconhecem que estereótipos existem e apontam que repetições fazem parte de uma fórmula para garantir audiência.
"Está havendo um 'remake' de personagens. É bom para o ibope, pois o público reconhece e assimila histórias repetidas, mas é prejudicial ao estímulo à criatividade", critica Laurindo Leal, sociólogo e professor especializado na área de TV.
Aos intérpretes, o risco é de ficarem presos a um gênero. "É normal que atores mais ou menos renomados sejam absorvidos por diretores, autores, agentes publicitários e mídia por se encaixarem em algum perfil", explica a atriz Eliete Cigarini, professora na escola de atores Wolf Maya. "Cabe a eles, então, mostrar que podem assumir novos papéis. A TV é consequência, mas o teatro e o cinema abrem caminhos", diz.
A autora Maria Adelaide Amaral confirma: "Dou preferência a quem faz teatro e cinema. Ou seja, a quem diversifica e investe na carreira. Busco um consenso com o diretor, mas recompenso quem, com talento, defendeu bem seu personagem em um trabalho anterior".
Ricardo Linhares observa, porém, que o sucesso em uma novela não é determinante à escalação em outra. "O ideal é que um ex-vilão possa atuar em comédia, depois. Mas não é uma escolha científica. Ninguém nunca reclamou de Julia Roberts e Tom Hanks fazerem tantos papéis heroicos."

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