Contrariando uma opinião de Salvador Dali, o artista paranaense Jorge Pedro mostra que é perfeitamente possível conciliar o plástico com obras de arte. Prova disso são 16 esculturas que estão na exposição ‘‘A Dor de Existir’’ que vai ficar até o dia 9 na Biblioteca Central da Universidade Estadual de Maringá. Segundo os bilhetes deixados por alguns visitantes anônimos, seus trabalhos são ‘‘obras de profundo amor pelo ser humano e ao mesmo tempo um alerta, uma proposta de reflexão sobre o homem e sua difícil convivência em sociedade’’.
Ao todo são 49 trabalhos em técnicas diferentes, 16 esculturas em ferro, plástico e madeira, 16 infografias (colagens e impressão a tinta em papel HP), e 17 quadros em técnica de gratagem (colagem lixada e pintada) e assemblage (colagens e pinturas).
Estes trabalhos, segundo Jorge Pedro, que é teólogo, mostram a relação do homem com seu universo. ‘‘Nós nascemos na dor do parto e partimos na dor da morte. Entre um processo e outro acontece o universo artístico que começa da relação do homem com Deus, até as coisas mais simples do dia-a-dia’’, define o artista.
Marcos NegriniO artista plástico Jorge Pedro: desejo de expor em LondrinaJorge Pedro Barbosa Lemes nasceu em Peabiru, a 80 quilômetros de Maringá, formou-se pelo Seminário Teológico do Rio de Janeiro. Hoje, funcionário público aposentado, tem tido mais tempo para dedicar-se à sua arte fazendo esculturas com expressivas mensagens sociais. A gratagem é outra técnica que ele emprega a partir de colagens de jornais e revistas que depois lixa e pinta. Este estilo foi inventado pelo artista Max Ernest na primeira metade do século XX e hoje é bem difundido. Outra técnica é a assemblage feita com colagens e pinturas.
Jorge Pedro tem feito exposições pelo interior do Estado, em Campinas, São Paulo, e recentemente fez uma individual na Galeria Vicenzo, em Curitiba. Um antigo sonho de Pedro é o de poder expor na Universidade Estadual de Londrina. ‘‘Acho que lá minhas obras passariam pelo olhar clínico do pessoal do Departamento de Artes da UEL, que é profundo conhecedor do assunto. Agora só falta o convite.’’
A exposição ‘‘A Dor de Existir ’’, promovida pela diretoria de Cultura da pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UEM e pelo Bureau Raster, reúne seus trabalhos mais recentes. Jorge Pedro costuma dizer que sua arte perscruta as entranhas do homem. Uma prova disso são as opiniões dos visitantes anônimos das suas exposições deixadas num grande livro que Jorge guarda com muito carinho. ‘‘Nos recadinhos as pessoas revelam que ficam tocadas pelas mensagens contidas nas minhas obras’’, conta o artista. Entre os bilhetes teve até o de um visitante do Japão que deixou uma mensagem convidando-o para expor naquele país.
Outro visitante deixou escrito no livro que ‘‘seus trabalhos são dedos nas chagas sociais e que suas obras gritam verdades’’. Sua escultura ‘‘Em Nome do Pai’’ em ferro plástico e madeira, retrata a figura paterna segurando um ferro de marcar gado. Pedro conta que este trabalho tem sido apresentado aos alunos do psicólogo Arthur Molina para que façam análises sobre temas discutidos no curso de Psicologia da UEM.
Os trabalhos de Jorge Pedro retratam sentimentos humanos nas difíceis situações cotidianas, como o medo de sair no trânsito da cidade, as relações do casamento, os conflitos por terras, a loucura. Sobre o quadro ‘‘Tebas Negro’’, ele diz que mostra a importância da coragem e do destemor das pessoas da raça negra no Brasil.
Uma das peças que tem chamado a atenção do público é a ‘‘A Forma para Semi Deus’’ que representa a ‘‘loucura do poder ou quando o poder se torna loucura’’. Sua escultura ‘‘Flor para os Sem-Terra’’, com 2,5 metros de comprimento, foi doada para a UEM. Ele é toda feita em ferro e coisas usadas por pequenos agricutores como foice, enxada e arame farpado. ‘‘Ela quer dizer que não sou nem a favor nem contra o Movimento dos Sem-Terra mas que do ponto de vista humano não posso ficar impassível à dor daquele povo.’’ Para a inspiração desta obra, o artista chegou a fazer um verso. Ele fala sobre as chacinas de sem-terra durante ocupações no Norte do País: ‘‘Itumbiara e Eldorado dos Carajás a vocês homens, mulheres e crianças que têm a coragem que eu nunca tive, ofereço este ramalhete de frágeis flores férreas’’ - Jorge Pedro, 1996.
• A Dor de Existir - de Jorge Pedro. Na Biblioteca Central da UEM, de segunda a sexta, das 7h30 às 22h30.

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