Às vezes, uma colocação feita em um determinado momento não vale para outro – sua forma já não se conforma com a mesma norma com a qual se conformava lá atrás. A forma se transforma. Mas não o conteúdo de quem tem princípios: ‘‘No princípio era o caos’’.
Artistas conhecem e dominam a linguagem do meio em que criam, que pensam a forma do lado de dentro da criação, sabem que a forma é consequência da qualidade estética de seus trabalhos. Mas há aqueles que em seu trabalho incentivam um formalismo barato, um virtuosismo oco a partir de jogos de efeito decorativo. E toda a conquista da ‘‘arte come cosa mentale’’ se transforma em papel de parede e artesanato quando o foco dos problemas se resume a gostos pessoais, impedindo qualquer possibilidade de discussão estética, de fato. Aliás, sobre o termo estética não podemos tomá-lo como define o platonismo, que é a representação do belo e do bom, mas sim como qualidade da percepção e dos sentidos. Por isso arte não é só uma questão intelectual, mas também de sensibilidade, o que varia de pessoa para pessoa. Alguém cuja vida é vazia não produzirá nem arte que perdure, nem conseguirá fluir de sua potência transformadora. É possível pensar a forma também como sinônimo de resistência da matéria sob a compreensão de dois meios distintos, como que definida pelo que é informe, pelo caos, pela barbárie. Muitos acreditam que a relação forma/função e forma/conteúdo seja a mesma coisa, mas são conceitos distintos. Não existe forma sem função, mas função não é conteúdo. Do lado de fora de sua parede, pele, limite, a forma suporta a pressão provocada pela função, que determina seu uso social. Do lado de dentro, é a própria necessidade do self que dá densidade a seu conteúdo, que são seus desejos, sua subjetividade, enfim.
Sobre sua estética, devemos pensá-la só naquela desvinculada do servilismo ideológico, que impulsiona o ser humano no sentido da autonomia e da independência. Porque se você não tem o que dizer, o como dizer não passará de piruetas técnicas, de efeitos sem sentido, de jogo lógico de linguagem, nunca possuindo a qualidade de alterar nossa percepção da ... forma.
Claro que a forma não pode ser desvinculada de sua função e conteúdo, pois é como pensar uma alma sem corpo, uma matéria sem espírito. O surgimento de um e de outro são simultâneos e dados na mesma medida. Um vocabulário novo é inventado toda vez que uma nova teoria também se desenvolve. Foi assim com a física quântica, por exemplo, que já não podia mais usar a nomenclatura da física newtoniana para descrever os fenômenos estudados por seus inventores. E esses caras, puxa, tinham conteúdo!
Enfim, como proceder alguma crítica a partir de uma visão formalista para pensar a obra de uma Orlan, com suas deformações no próprio rosto, de um Cabelo e suas performances utilizando aquário e peixinhos, de um parangolé do Oiticica, de uma Lygia Clark em sua fase sensorial? Simplesmente os recursos fornecidos pelo formalismo não dão conta de certos procedimentos cujo caráter híbrido de suas obras toca outras questões além do pleno conhecimento da linguagem e do uso da forma. Xamanismo, bruxaria, loucura, os poderes invocados nessas ações de caráter estético, artísticos, muitas vezes fogem do nosso controle. E quem se abre para este tipo de experiência sabe que o caminho à mediocridade não tem mais volta. Seu compromisso com a forma é o da transformação e não o da conformação com a situação.
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