Forest Whitaker participa do festival do Rio
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sábado, 18 de setembro de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 19 (AE) - O ator americano Forest Whitaker aderiu ao jeito de viver carioca praticamente desde o dia em que chegou à cidade. Ele veio para participar do Festival do Rio, que foi aberto na quinta-feira (16), com o filme "Ghost Dog", the Way of a Samuray, dirigido por Jim Jarmush e estrelado por ele.
O ator, que vai embora terça-feira (21), fez um programa típico da cidade no primeiro dia: foi ao tradicional Bar Amarelinho, ao lado do cinema Odeon, sede do festival, no centro da cidade, e tomou várias caipirinhas. No fim de semana, aproveitou para ir à praia e conhecer escolas de samba.
Quem não é ligado em cinema e o visse andando pelo calçadão de Copacabana, na zona sul, na sexta-feira (17), certamente não pensaria ser Whitaker, um dos mais famosos atores negros do mundo, premiado pelo desempenho como Charlie Parker, no filme "Bird", de Clint Eastwood, e um dos cachês mais altos do cinema americano.
Não era só pela camisa e calça brancas (traje que muitos cariocas adeptos do candomblé adotam nesse dia), mas, principalmente, pelo jeito malemolente e a simpatia, que o fazem dispensar segurança e conversar com quem quer que o aborde, seja um fã que o reconheça ou uma vendedora de coco que não sabe quem ele seja.
Charlie Parker é o personagem preferido dele. "Foi o mais difícil, o que mais exigiu de mim", disse ele. Whitaker afirma que, hoje, pode escolher os papéis e filmes, mas sempre procurou trabalhos que o fizessem conhecer novas pessoas e situações diferentes, aprender e crescer profissionalmente. Por isso, ele diz que sempre tem uma troca muito intensa com os diretores.
Para viver Parker, ele precisou aprender a tocar sax, um instrumento que deixou de lado porque se sentia deprimido cada vez que tentava tocar. "Em Ghost Dog, aprendi a lidar com pombos", conta. "Mas não voltei a tocar sax porque, cada vez que tentava, experimentava sentimentos estranhos."
Whitaker e Jim Jarmush tinham planos de trabalhar juntos havia muitos anos e o personagem Ghost Dog, um matador que se inspira no código de ética dos samurais, foi criado especialmenente para ele. "Quando começamos a trabalhar, não havia roteiro e conversamos muito sobre o personagem e a história", lembra o ator. "Mas eu não acho o personagem violento, apesar de ele matar muitas pessoas no filme."
De qualquer modo, Whitaker carrega o filme, pois é o único ator que empresta veracidade e empatia a um personagem. Ghost Dog é um daqueles filmes em que os diretores independentes americanos mostram o que existe de pitoresco no lado pobre (e podre) da sociedade dos Estados Unidos. A começar pelo protagonista, todos os personagens são chinfrins, meio pobres e meio bandidos, cheios de manias esquisitas. A pretexto de discutir modernidade e tradição, o filme usa a violência como recurso estético, em cenas com direção e edição perfeitas, embaladas por música eletrônica. Tudo termina com uma criança atirando.
Mas o ator veio ao Brasil mais para descansar e conferir a lenda de que aqui as praias, os lugares e as pessoas são bonitos do que para ver um festival de cinema ou divulgar seu filme. Tanto que ele não alimenta polêmicas sobre "Ghost Dog" nem tinha planos de assistir a muitos filmes, mas não se furtou a uma conversa amigável com o diretor Abderrahmane Sissako, nascido na Mauritânia e hoje radicado na França, depois de uma passagem pela ex-União Soviética. Sissako veio ao Festival do Rio para apresentar dois filmes, "A Vida sobre a Terra" e "Rostov-Luanda", os dois de 1998.
Os dois são o exato oposto dos modos de fazer cinema hoje em dia. Enquanto Whitaker é um artista bem-sucedido do cinema americano de grandes orçamentos e penetração no mercado mundial, Sissako faz filmes de baixo custo, dirigidos a um público específico e tratando de problemas bem locais. "Não tenho vontade de popularizar meus filmes, até porque essa palavra me soa depreciativa, mas gostaria que muita gente os visse", diz Sissako. "Apesar de meus filmes terem narrativas diferentes, o assunto é sempre o amor, a dificuldade de comunicação e a vida no exílio." No fim das contas, os dois parecem ter entendido-se bem, mas um ainda não viu o filme do outro.


