A jornada de hoje do 61º Festival de Cannes traz um de seus momentos mais esperados: as quatro horas e vinte e oito minutos da cinebiografia de Ernesto Che Guevara conforme a interpretação do olhar do diretor Steven Soderbergh, que volta ao batente intelectual depois do último refresco no playground de ''Treze Homens e Um Novo Segredo''. Muito melhor do que rios de sangue, torrentes de caracteres devem congestionar on-line as redações, sites, blogs, fóruns, chats. Ou seja, a partir de tudo aquilo que o memorial do mito revolucionário cubano deixou como legado. Ou não. Amanhã, claro, volto ao assunto.
Exatidão e fidelidade. Ao que tudo indica, foram estas as motivações do novo filme de Clint Eastwood visto ontem aqui em Cannes. ''The Exchange'' (A Troca) marca a volta do diretor à principal sessão da mostra, e de certa forma repete aquela dramaturgia tecida por ele há dois anos em ''Sobre Meninos e Lobos''. Aqui, no final dos anos 1920, o que acontece é o drama real de Christine Collins (Angelina Jolie, agora definitivamente com o diploma de conclusão do curso de atriz), mãe solteira do garoto Walter, de 9 anos, que um dia desaparece de casa misteriosamente.
Mergulhado em documentos oficiais e material iconográfico que nunca atraíram o interesse de Hollywood, Clint faz uma espécie de autos da devassa, esquadrinhando e expondo o que se poderia chamar de vergonha de uma nação. Com o nome sujo na comunidade de Los Angeles, e se aproveitando da então frágil condição da mulher numa sociedade fechada às atitudes femininas independentes, a polícia arma uma farsa e impõe à mãe desesperada um garoto que não é seu filho real.
O filho, na verdade, foi uma das vinte crianças raptadas e mortas por um serial killer, mais tarde preso e executado. Isto, no entanto, só ocorre depois que Christine, hostilizada pela polícia, é internada num hospital psiquiátrico. Mas a força da opinião pública vai estabelecer novas regras contra a corrupção policial e política.
Nenhuma dúvida de que ''A Troca'' é um dos filmes mais ambiciosos do diretor. O que começa como uma história banal se transforma aos poucos no magnífico retrato de uma mulher livre na qual o espírito independente aparece como uma ameaça à sociedade masculina. De quebra temos uma das reconstituições mais convincentes da Los Angeles da idade dourada. E o destino de uma criança se revela a chave para se entender uma cidade e uma época.
Um ano depois de ''Os Donos da Noite'' passar na competição aqui mesmo em Cannes, o diretor James Gray está de volta à mesma seção, aliás entrando na última hora como um dos três filmes anunciados. Ele é requisitado aqui desde 2000, quando ''Caminho Sem Volta'' concorreu sem levar nada. O bom dele até agora era sua estréia, ''Fuga para Odessa'', mas se deu ainda melhor agora com este ''Two Lovers'', drama romântico em chave bem mais light do que seus pesados títulos anteriores.
O que até então era ''noir'' viu agora a luz do dia, e o que temos, forçando o neologismo, é uma ''dramédia'', ou uma comédia sentimental temperada por pitadas de drama. Na cena nova-iorquina, os tormentos amorosos de um solteiro bipolar (Joaquin Phoenix, fetiche do diretor Gray), dividido entre duas tendências afetivas: a morena judia, familiar e porto seguro (Vinessa Shaw), e a loura bela e volátil (Gwyneth Paltrow). O roteiro é extremamente bem- escrito, e a direção de Gray é tão generosa com seus personagens quanto afetuosa quanto ao envolvimento do espectador com esta história que dá exatamente o que se requer de um bom filme: sinais de vida pulsante.
Quem pensar em ''Bonequinha de Luxo'' não estará enganada, há no filme muito mais do pistas.
A mostra competitiva também teve seu momento máfia, muito bem conduzido pelo italiano Matteo Garrone. ''Gomorra'' tece uma teia de cinco histórias entrelaçadas. O cenário é a Sicília, mais precisamente Nápoles e a província de Caserta, e o material, pesado e sufocante, é o crime organizado e sua trindade absoluta: poder, dinheiro e sangue. Não há escolha, é participar desse sistema criminoso imposto pela Camorra e ter uma vida ''normal'' ou simplesmente desaparecer. O filme, com elenco não-profissional, é baseado em livro-bomba de jornalista hoje vivendo sob proteção policial.
Um tanto decepcionante, a concorrência dos irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne duas vezes Palma de Ouro em Cannes. ''O Silêncio de Lorna'', sobre a máfia dos casamentos fake para garantir nacionalidade principalmente de europeus orientais na Bélgica, começa bem como sempre nesta afinada fraterna parceria, mas passada a primeira hora, uma súbita e arbitrária reviravolta carrega a narrativa por caminhos desajeitados, e o filme perde prumo e decresce em qualidade.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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