Força dramática de Marília Pêra é um dos pontos altos do filme
São Paulo, 03 (AE) - Trilogia da paixão, sim. Mas paixão trágica, comme il faut, no universo barroco de Lúcio Cardoso. "O Viajante" conta a história de Ana de Lara (Marília Pêra), viúva de um militante comunista. Já madura, mãe de um garoto doente, Zeca (Ricardo Graça Mello, filho da atriz), ela se enamora do caixeiro-viajante Rafael (Jairo Mattos), de passagem pela cidade.
Rafael é um anjo exterminador, parecido com aquele de "Teorema", de Pier Paolo Pasolini, que traz a desagregação sexual a um ambiente aparentemente adormecido. Em Pasolini era uma família burguesa. Em Saraceni, uma modorrenta cidade do interior, onde o tempo parece não passar. Ana de Lara apaixona-se por ele. Mas Rafael também dá em cima da ninfeta Sinhá (Leandra Leal). Sinhá mora na casa de mestre Juca (Nelson Dantas) um fabricante de caixões, casado, que também morre de amores por ela. Enfim, aquela cidade, aparentemente morta, está mais viva do que nunca. Em suas entranhas pulsa o desejo.
E, como todo mundo sabe, o desejo, que é vida, pode flertar com seu contrário, a morte. Ana de Lara intui as vontades do amante e procura realizá-las, da maneira a mais louca possível. Mestre Juca leva sua pulsão ao paroxismo. Um dos pontos altos do filme é o encontro entre Ana e Juca, esses dois grandes criminosos de amor.
"O Viajante" não é atração para todos os gostos. Ama-se ou detesta-se, como sabe o próprio diretor. Nada há de convencional, nem no universo criado por Lúcio Cardoso nem na revisão a que este é submetido por Paulo Cezar Saraceni. Cardoso é um excepcional retratista do interior de Minas (nasceu em Curvelo). Sabe, como ninguém, que as paixões explodem, e de maneira doentia, em ambientes repressivos. Por isso, seus textos já foram definidos como bofetadas em almas convencionais.
Saraceni os retoma de maneira adequada, isto é, enfatizando não apenas seu caráter corrosivo como o entorno barroco em que se desenvolvem as tramas. Uma fidelidade inventiva em relação ao texto. Ele não hesita, por exemplo, em tingir um vestido inteiro para mostrar que um crime foi cometido. Nem em soltar balões vermelhos para significar que o sangue correu mais uma vez por conta da paixão. Quem tiver má vontade vai achar ridículo. Quem se deixar envolver notará que é apenas um recurso retórico, nada mais nada menos.
Saraceni distribui a história em blocos alternados no tempo. Quer dizer, há avanços e recuos na narrativa, que podem dificultar a vida de quem só olha em linha reta. Mas que conferem especial dramaticidade à narrativa. Essa fragmentação parece ser esteticamente necessária. Mergulha o espectador num universo sem saída, circular, auto-referente. Produz grande impressão. Mas é provável que o filme não fosse a mesma coisa sem Marília Pêra. Que ela é, ao lado de Fernanda Montenegro, a maior atriz do País, já se sabe há muito.
Em "O Viajante" tem um dos pontos altos de sua carreira, pense ela o que pensar desse trabalho. Está em duas sequências capitais, de antologia. Mas não é tudo. Essa grande Medéia mineira impregna com sua força dramática cada fotograma desse belo e difícil filme. Mesmo quando não está em cena, espera-se por sua volta. Está presente mesmo na ausência. O que mais pode querer uma atriz? (L.Z.O.)





