A TV brasileira não inventou a telenovela. Mas, sem dúvida, foram os autores, produtores, diretores, atores, emissoras brasileiros os que deram a esta atração o seu excepcional nível. Há coisas curiosas em termos de arte visual, no Brasil: não conseguimos fazer filmes que atraíam como os produzidos pelos norte-americanos, nossa indústria cinematográfica sobrevive em função de uma ou outra produção. Mas em termos de telenovela, somos imbatíveis. Conquistamos mercados em todo o mundo, brilhamos.
Não é preciso dizer que, atualmente (e há muitos anos) a Rede Globo é a principal responsável por isto. Tem uma indústria fantástica, é uma verdadeira máquina produtora de novelas. Claro que isto é complicado, é difícil manter o nível, é complicado manter os elevados índices de audiência. Mas a Globo não dorme sobre os louros. Enquanto três novelas (sem contar a ‘Malhação’, que é outra coisa) estão sendo produzidas e mostradas no horário noturno, há um monte de gente trabalhando para criar as que virão, em um processo industrial duro. Usam-se até algumas fórmulas para manter a roda girando: refazer antigos sucessos é uma destas maneiras. Produzir novela ‘‘de época’’ é outra. Não se pode esquecer que um dos maiores sucessos da Globo, aqui como lá fora, foi ‘‘A Escrava Isaura’’. Antes e depois, houve outras e todas, ainda que sem repetir a performance da história da branca Isaura que era escrava, atingindo os objetivos: altos índices de ibope.
Esta semana, para substituir o não muito bem-sucedido remake de ‘‘Pecado Capital’, a Globo apelou para uma novela de época, ‘‘Força de um Desejo’’ com um elenco estelar que apresenta até a legendária Sônia (Gabriela) Braga. Isto sem contar toda uma constelação global que dá a impressão até de um esforço muito grande para uma produção considerada menor, a novela das 6. Ao que parece, a Globo quer é mostrar que pode, que é a maior e que mesmo os espectadores das 6 merecem um cardápio de primeira.
Os números de ibope conseguidos na primeira semana não chegaram a ser tão satisfatórios quanto o esperado pela Globo. ‘‘Força de um Desejo’’ não chegou a bater os capítulos finais de ‘‘Pecado Capital’’. Mas a esperança é grande. Afinal estão ali todos os ingredientes: história de época, roupas lindas, grandes nomes do elenco entre os quais Malu Mader, Reginaldo Farias, Paulo Betti, a já citada Sônia Braga e todo o know-how da emissora.
Os espectadores de costume - os que assistem novela quase que compulsivamente - estão gostando. Há alguns não habituais que também se mostram interessados. Todavia, o panorama não parece muito alentador. Alguns personagens estão carregando muito na interpretação. Sônia Braga, uma inesquecível Gabriela, não tem sequer o tipo físico de uma baronesa do Império. Os estereótipos se repetem e a impressão é a de que se está vendo algo já visto, com outras roupas mas no mesmo enfoque.
Pode ser que melhore. Como dizem alguns, a má interpretação que se observa nesta novela é até melhor do que a que se está vendo em ‘‘Suave Veneno’’. Quer dizer, é possível estar diante de um problema global que tem pouco a ver com a época e sim com os diretores. Não é só entre os novelistas que a renovação é difícil, também entre os que dirigem, parece, se nota a mesma dificuldade.

mockup