Fora do padrão
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 2015
Geraldo Bessa <br>TV Press 
De bermuda, camiseta, volumosa barba grisalha e quase nada de maquiagem. Nem nos seus sonhos mais pitorescos Alexandre Borges imaginou que poderia passar uma novela inteira gravando em trajes tão simples. Na pele do malandro boa praça Jurandir, de "I Love Paraisópolis", o ator deixa os ternos alinhados e bem cortados que acompanham a maioria de seus personagens e valoriza o estilo rústico de seu papel atual. "É uma libertação! É bom ficar sem me preocupar em fazer a barba durante alguns meses. Melhor ainda é não ter de ficar tanto tempo em processo de caracterização. Já chego quase pronto para gravar. Além da praticidade, o visual do Jurandir é parte importante na minha descoberta sobre o personagem", analisa.
Nascido em Santos, litoral paulista, há 49 anos, Alexandre mantém a mesma curiosidade de quando iniciou sua trajetória como ator. Após passar por grupos de teatro capitaneados por diretores de vanguarda, como Ulysses Cruz e Antunes Filho, estreou na tevê já no posto de protagonista de "Guerra Sem Fim", da extinta Manchete, em 1993.
Seu desempenho chamou a atenção de diretores da Globo, para onde se transferiu no ano seguinte e, de cara, engatou projetos como "Incidente em Antares", "Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados" e "A Próxima Vítima". Posteriormente, marcou presença em tramas como "Quem é Você" e "O Beijo do Vampiro". E, mais recentemente, tem acumulado papéis cômicos em produções como "Ti-Ti-Ti", "Avenida Brasil" e na atual novela das sete. "As coisas vão acontecendo de forma muito rápida. É preciso tempo para analisar a construção de uma carreira e sinto muito orgulho do que já fiz. Porém, acho que ainda tem muito mais coisas para a acontecer. Procuro me manter atento a tudo o que está sendo produzido dentro da emissora", garante.
É a primeira vez que você aparece na tevê com um visual tão simples e popular. Como está sendo a recepção do público?
Acho que é bem próxima da minha reação quando comecei a deixar a barba crescer e, posteriormente, com o início das gravações. Jurandir é aquele tipo que me tira do lugar-comum da imagem dos cabelos milimetricamente arrumados e ternos. O público adora, se identifica e elogia nas ruas. Mas acho que é por conta do jeito simpático do personagem também.
O visual mais natural e rústico foi ideia sua?
Propus e a equipe técnica achou interessante. A ideia é de desconstrução mesmo. Eu e a direção achamos que ele precisava de um visual mais despojado e tudo foi pensado para ter essa imagem rústica e meio afetuosa também. A inspiração partiu de uma boa parte do povo brasileiro. Gente que vive na corda bamba, tendo de mostrar seu valor. O personagem cresceu não só a partir das minhas conversas com os autores, mas do meu poder de observação.
Como isso funciona?
Não sou do tipo que fica em casa pesquisando pela internet. Eu ando muito na rua, vou ao mercado, ao shopping, saio com meus amigos. Quando estou envolvido com um personagem, esse olhar mais crítico acaba selecionando algumas referências mesmo. Fora isso, sou de Santos, uma cidade portuária, dominada por casarões e cortiços. Sempre convivi com pessoas próximas da figura do Jurandir. Essas memórias afetivas são muito importantes para qualquer personagem que possa aparecer.
Frequentar a comunidade de Paraisópolis valorizou o processo?
Totalmente. Eu já conhecia a região, já tinha passado por lá. Mas nunca tinha entrado e conversado com moradores. Essa vivência é interessante na hora de gravar, de imprimir alguma verdade. Assim, eu consigo ter matéria-prima para gestos, atitudes e posturas de um local. É curioso quando você pode ter essa referência existente. Aconteceu o mesmo com "Guerra Sem Fim", da Manchete. A gente gravava em pleno Morro da Mangueira, em uma época onde os problemas da segurança pública no Rio de Janeiro eram muito mais complexos. Aquela experiência foi importante para eu dar conta de interpretar um traficante, por exemplo. E acabou por me conectar à comunidade.
Como assim?
Eu passei a frequentar a quadra da escola de samba, a ser conhecido pelos moradores, desfilei na Sapucaí algumas vezes. Me deparei com tudo de bom e de ruim da vida daqueles moradores. Foi um choque de realidade, que me deu a noção de que, às vezes, a gente reclama demais da vida sem motivo. A alegria de viver das pessoas que moram no morro é quase inabalável. Não têm saneamento básico, segurança, transporte, mas eles, de alguma forma, tentam manter o sorriso no rosto.
Mais de 20 anos separam "Guerra Sem Fim" e "I Love Paraisópolis". Ao longo desse tempo, comunidades e áreas periféricas passaram a ambientar não só os núcleos pobres, mas a novela como um todo. Como você vê esse movimento?
Essa visibilidade é extremamente importante e ganhou mais força nos últimos 15 anos. A novela no Brasil tem esse poder de servir como um espelho social, tanto que é muito cobrada por isso. E acho que existe espaço para várias formas de abordar as histórias desse povo. Lá em "Guerra Sem Fim", as mazelas eram mais evidentes e era uma trama da Manchete, que ficou conhecida por trabalhos de tintas mais pesadas. "I Love Paraisópolis" já é uma novela das sete, a ideia da novela é exaltar a retomada de uma consciência social e da valorização do morador de favela. O clima é bem mais tranquilo e cheio de humor (risos).
Boa parte de seus personagens na tevê são mais densos. No entanto, a partir de "Laços de Família", você mostrou que poderia encarar tipos cômicos. Essa mudança de rota era esperada por você?
Com certeza. O Danilo foi muito especial nesse sentido, mostrou ao público e à emissora que eu tinha essa aptidão. Mas tenho dois encontros com o humor na televisão. O remake de "Ti-Ti-Ti" inaugurou uma nova fase. Eu já topei fazer a novela torcendo por isso. Até porque, naquela época, eu vinha de dois personagens bem densos: o mocinho Escobar de "Desejo Proibido" e o Raul Cadore de "Caminho das Índias". Eram dois tipos com trajetórias dramáticas. O Raul era muito pesado, enganava a família para viver um grande amor e estava caindo em uma armadilha da amante, passava fome, muitas dificuldades... Então, o Jacques Leclair meio que recolocou minha carreira em um ponto mais diverso.
Tom popular
A facilidade com que o público de novelas se identifica com personagens cômicos surpreende Alexandre Borges. E seus últimos trabalhos o têm aproximado ainda mais do telespectador. "Nas ruas é impressionante. Acho que o fato de me verem em situações engraçadas no vídeo acaba deixando a sensação de algo meio familiar", conta.
A boa audiência de "I Love Paraisópolis" e o fato de ser uma novela das sete, entretanto, acabaram chamando a atenção de um público mais específico: o infantil. Algo que também aconteceu quando Alexandre deu vida ao excêntrico e exagerado Jacques Leclair, no remake de "Ti-Ti-Ti". "O horário é muito abrangente e são duas tramas de caráter jovial. Eu adoro essa repercussão com as crianças, acho que o tom lúdico do humor acaba por ter esse apelo com elas", acredita. (G.B.)
Ponto de partida
A facilidade de Alexandre Borges para viver personagens de tintas cômicas é evidente. No entanto, a carreira do ator começou a se desenvolver na Globo através de tipos mais densos, como o Luís Cláudio de "Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados" e, sobretudo, o inescrupuloso Bruno de "A Próxima Vítima", ambas produções de 1995. "São dois trabalhos que repercutem até hoje e se revelaram um ótimo cartão de visitas. Gosto muito dessa primeira fase da minha vida na tevê. Lembro de chegar no estúdio e só ver gente muito famosa e de quem eu era fã. Tinha de me policiar para não ser um tiete chato", diverte-se. (G.B.)


