Em alguns suspenses, as falhas no argumento passam mais ou menos despercebidas ao longo da narrativa, e somente quando o filme acaba o espectador, se ainda estiver sintonizado, vai reparar que foi enganado. Em outros, é a própria evolução da trama que se assiste que crescente incredulidade. Neste caso, as inconsistências são muito óbvias: o comportamento do personagem principal, que é base de todo o argumento, resulta inverossímil, mesmo que seus sentimentos e o comportamento dos demais personagens possam parecer verossímeis.
Também é verdade que, aceitando certas licenças algumas reviravoltas e peripécias surpreendentes numa narrativa quase linear , o bom acabamento formal e as boas interpretações de modo geral até que compensam o ceticismo que o filme provoca. Isto tudo aí em cima serve como uma aproximação mais branda ao lançamento ''Fora de Rumo'', entrando hoje no circuito nacional (confira a programação na página 2). O filme bem que gostaria, mas não tem a competência necessária para visitar os domínios do film noir.
O agente de publicidade Charles Schine (Clive Owen) conhece a bela e fria Lucinda Harris (Jennifer Aniston) no trem que os leva diariamente ao trabalho em Chicago. Empatia, atração mais forte a tal química entre o casal de atores não é lá essas coisas, mas dá para o gasto carnavalesco tentação não resistida e o encontro clandestino num hotel barato, onde são surpreendidos por um delinquente que os ameaça com chantagem.
O delineamento desta proposta baseada em novela de James Siegel pode ser aceitável, mas desde logo a trama parte para extremos de exagero que não apenas tornam inacreditável a intriga criminal pura como também desativam o drama de Charles, empenhado em proteger tanto sua família como a Lucinda. Às vezes a ação é mais veloz que a história.
Em todo caso, o sueco Mikael Hafstrom, debutante em Hollywood, demonstra estar sintonizado com aquilo que se conhece como sólida produção, extraindo deste quesito o máximo proveito e entregando à platéia aquele proverbial entretenimento aceitável. Clive Owen é cada vez mais um ator a se prestar atenção, alguém sempre expressivo sem inventar trejeitos e tiques ou recorrer a muita gesticulação. Jennifer Aniston ainda não encontrou sua hora e vez, e demonstra que em 2005 o inferno astral da vida privada foi extensivo aos sets.
Assistindo a ''Fora de Rumo'' fica a impressão de que se está diante de mais um thriller de efeitos moralizantes. Mas, como cinema, inferior ao modelo mais evidente, ''Atração Fatal'', e longe das lições de outros mestres do gênero. (C.E.L.J.)

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