Não se pode dizer que se foi o tempo em que as tramas das 21 horas brilhavam. Mas as grandes surpresas deste ano acabaram se revelando em outras faixas. No "Melhores de TV Press 2012", a escolhida na categoria "Melhor Novela", por exemplo, veio das 23 horas: a adaptação de Walcyr Carrasco de "Gabriela". Assim como o prêmio de "Melhor Autor", uma vitória dividida pela dupla estreante João Ximenes Braga e Claudia Lages, responsável pelo texto de "Lado a Lado". Uma prova de que apostar no novo muitas vezes pode trazer resultados proveitosos.
"Avenida Brasil" não fez feio. Marcos Caruso abandonou de vez o estigma de pai e marido "encostado", ganhando insuspeitos ares de galã maduro e sendo consagrado como "Melhor Ator Coadjuvante". Mas a unanimidade ficou mesmo com sua colega Adriana Esteves. Com sua interpretação madura e visceral, a vilã Carminha conseguiu um feito que poucos malvados dos folhetins alcançam: uma redenção construída ao longo da exibição. De madrasta cruel que abandona a enteada órfã em um lixão, a "loura má" salvou a mocinha da morte no final e, assim, faturou seu "happy end".
Em tempos de valorização da Classe C, "Cheias de Charme" apostou no exagero em todos os pontos da história. Principalmente na direção de arte, que abusou de cores e futilidades em diversos cenários, mas soube retratar ainda uma comunidade que funcionava como contraste a toda a ostentação.
Investimento alto também rendeu à Record o título de "Melhor Série" para "Rei Davi". Uma mostra de que o gênero bíblico pode mesmo ser um diferencial na emissora liderada por pastores sem que isso signifique a evangelização de seu público.
Mas ousadia mesmo quem trouxe à televisão em 2012 foi Luiz Fernando Carvalho. O diretor conseguiu flertar com o popular sem deixar de lado todo o seu requinte e olhar poético que anda quase extinto na tevê aberta ao criar "Suburbia". Só poderia mesmo ser dele o prêmio de "Melhor Diretor" do ano.

Novela
"Gabriela"
Desde a escolha do elenco, direção de arte e a própria direção de Mauro Mendonça Filho, "Gabriela" foi o grande destaque entre os folhetins de 2012. Mais até pelos personagens paralelos do que pelo próprio casal de protagonistas, vividos sem maior brilho por Juliana Paes e Humberto Martins. Com uma luz sempre fiel aos tons quentes da trama criada por Jorge Amado, a produção caprichou também no figurino e trilha sonora – outras vitórias nos "Melhores de TV Press 2012". "Gabriela" provou que a nova faixa de 23 horas é mesmo um grande acerto da Globo, com histórias mais curtas e uma liberdade de criação que não se consegue nos outros horários.

Atriz
Adriana Esteves, a Carminha de "Avenida Brasil"
Adriana Esteves conseguiu a unanimidade em 2012 entre os melhores da dramaturgia brasileira. Mesmo diante de atrizes como Cláudia Abreu e Leona Cavalli, que se destacaram em "Cheias de Charme" e "Gabriela", a atriz finaliza o ano consagrada. Ao longo dos 179 capítulos de "Avenida Brasil", ela conseguiu fazer da dissimulada Carminha uma das maiores vilãs da teledramaturgia nacional.

Ator
Antônio Fagundes, o Ramiro de "Gabriela"
Nos últimos anos, Antônio Fagundes parecia ter dificuldades para, na tevê, se distanciar do caminhoneiro Pedro, que interpretou no seriado "Carga Pesada". Mas fez uso de toda sua experiência para transformar o rude Ramiro Bastos, de "Gabriela", na atuação mais marcante da novela. E se despiu de qualquer vaidade para isso. Tanto que, em cena, aparentava bem além dos seus 63 anos.

Atriz Coadjuvante
Carolina Dieckmann, a Jéssica de "Salve Jorge"
A ideia era que Carolina Dieckmann fizesse uma curta participação na reta inicial de "Salve Jorge". Mas o vagaroso desenvolvimento da ida da mocinha Morena, de Nanda Costa, para a Turquia, vítima do tráfico humano, fez com que a atriz roubasse as cenas e todos os holofotes da novela se voltassem para a corajosa Jéssica.

Ator Coadjuvante
Marcos Caruso, o Leleco de "Avenida Brasil"
O talento de Marcos Caruso, 60 anos, sempre foi evidente, mas é fato que suas aparições mais marcantes nas novelas se deram em papéis de pais ou maridos tratados como bobões, como aconteceu em "Mulheres Apaixonadas", "Páginas da Vida" e "Três Irmãs". Na pele do ex-pugilista Leleco, um típico malandro do subúrbio, o ator conseguiu se reinventar e, ao lado de Débora Nascimento e Eliane Giardini, foi o responsável pelas sequências mais hilárias da história de João Emanuel Carneiro.

Autor
João Ximenes Braga e Claudia Lages, de "Lado a Lado"
Audiência não pode mesmo ser vista como sinônimo de qualidade. Apesar das limitações impostas pelo horário das 18 horas e até pelos paradigmas que insistem em sobreviver na teledramaturgia, João Ximenes Braga e Claudia Lages não se acomodaram. Ao estrearem como autores principais com "Lado a Lado", os dois conseguiram criar um contexto original, em que uma parte da história dos negros no Brasil é contada a partir do ponto de vista deles.

Diretor
Luiz Fernando Carvalho, de "Suburbia"
Luiz Fernando Carvalho é, sem dúvidas, um dos diretores mais autorais da televisão. Ainda mais em seus trabalhos recentes, em que passou a assinar também o texto. E, muitas vezes, paga um preço por isso. Ao se permitir as maiores ousadias dentro da Globo, corre o risco de amargar índices fracos de audiência, como já aconteceu com "A Pedra do Reino". Desta vez, com "Suburbia", Carvalho se volta para a periferia, mas com um tom poético e imagens conceituais que trazem um diferencial para a tevê aberta. E consegue um apelo popular que os últimos trabalhos do diretor não conquistaram.

Séries e Seriados Nacionais
"Rei Davi"
Depois de uma experiência desastrosa com "A História de Ester", em 2010, e algum avanço com "Sansão e Dalila", em 2011, a Record parece finalmente ter dado seu grande passo no gênero bíblico ao produzir "Rei Davi". A escalação de Edson Spinello como diretor-geral foi um grande acerto, assim como também o aumento de investimentos. Os custos de produção chegaram a R$ 25 milhões, o que possibilitou um cuidado especial nos cenários, caracterizações e figurinos valorizados pela alta definição das imagens.

Figurino
Labibe Simão, de "Gabriela"
Na segunda versão de "Gabriela", Labibe buscou inspiração no cinema da época e em figuras icônicas para compor alguns papéis. Como na dona do bordel Bataclan, Maria Machadão, vivida por Ivete Sangalo, declaradamente inspirada em Coco Chanel.

Fotografia
Walter Carvalho, de "Lado a Lado"
Trabalhar a luz de uma época sem energia elétrica é tarefa para gente grande. Não à toa, Dennis Carvalho contou com o auxílio de Walter Carvalho na hora de conceituar toda a fotografia de "Lado a Lado". Partindo de ruas escuras e do princípio de que a luz vinha do fogo, da lamparina, o cineasta se desdobrou para ambientar uma época que só conhecemos através de retratos em preto e branco.

Cenografia
Alexandre Gomes, Alexis Pabliano e Flávia Yared, de "Avenida Brasil"
A equipe de cenografia de "Avenida Brasil" transformou as imagens do aterro sanitário cenográfico em um dos pontos altos da trama de João Emanuel Carneiro. Foram 13 mil metros quadrados de cidade cenográfica construídos dentro do Projac, complexo de estúdios da Globo, inspirados no aterro de Jardim Gramacho, em Caxias, na Baixada Fluminense.

Trilha sonora
Mariozinho Rocha, de "Gabriela"
A estratégia de manter a trilha sonora original da primeira versão de "Gabriela" com novos arranjos foi um grande diferencial na adaptação de Walcyr Carrasco do clássico de Jorge Amado. Em tempos de busca excessiva por ritmos que empolguem a nova Classe C, Mariozinho Rocha soube dosar o conservadorismo e a ousadia na medida certa, acrescentando apenas uma ou outra canção por questões estratégicas.

Arte
Eduardo Feijó, produtor de arte de "Cheias de Charme"
Novelas das 19 horas são sempre pautadas na comédia e recheadas de exageros. E esse parece ter sido o maior trunfo da equipe de arte de "Cheias de Charme". Desde ônibus e avião personalizados para as turnês dos artistas da trama à favela cenográfica, tudo reforçou o conceito de fábula, presente ao longo de todo o texto de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira.

Destaque negativo
Rodrigo Lombardi, o Théo de "Salve Jorge"
Rodrigo Lombardi amarga em "Salve Jorge" o que o colega Márcio Garcia passou em "Caminho das Índias". Na época, o insosso Bahuan, papel de Márcio, perdeu o posto de galã para Raj, indiano vivido por Rodrigo. Por enquanto, Lombardi ainda não tem um substituto na trama das nove. Mas, pelo que se vê até agora, parece mesmo que seu cavaleiro Théo não é "o cara", como supõe a música que embala suas cenas, "Esse Cara Sou Eu", de Roberto Carlos.

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