Fora da geladeira
Leandro Calixto
TV Press
Daniel Azulay está de volta. Depois de 13 anos no ostracismo televisivo, o criador da Turma do Lambe-Lambe e do professor Pirajara ganhou um programa todo sábado, a partir das 9 horas, em rede nacional na Band: a Oficina do Daniel Azulay. Aliás, ele volta justamente para mesma emissora onde atuou por dez anos: de 1976 a 86. Este regresso aconteceu no momento certo. Quero comprovar que é possível fazer um programa infantil sem nenhuma banalização, planeja Daniel, que já vinha apresentando o programa apenas na Band Rio e mantinha uma média de quatro pontos Ibope.
Aos 52 anos, Daniel acredita que sempre esteve na contramão em relação aos demais programas infantis. Ele lembra que sua produção saiu da grade de programação da Band justamente na época em que surgiram Xuxa e Angélica na tevê brasileira. As emissoras passaram a privilegiar as louras de shortinhos. O resto estava tudo descartado, alfineta o apresentador, com um indisfarçável ressentimento. No período em que ficou fora da tevê, Daniel passou a investir em oficinas de artes. Atualmente, ele dirige 15 escolas, sendo 11 no Rio de Janeiro e as demais no interior de São Paulo e Curitiba, no Paraná.
Neste longo período ausente do vídeo, Daniel conta que procurou se reciclar. Ele reconhece que os conceitos das crianças mudaram muito nos últimos dez anos. A comunicação evoluiu de uma forma assustadora. As crianças têm internet e CD Rom, entre outros equipamentos tecnológicos, pondera.
Como surgiu a oportunidade de você retornar a fazer um programa em rede nacional?
Há muitos anos vinha batendo na porta das emissoras em busca de um espaço. Mas ninguém me dava a mínima atenção. Percebi que as emissoras só queriam apostar em apresentadoras louras e que abusassem da sensualidade. Só fui ter um retorno depois que desenvolvi um CD Rom. Enviei uma edição para o diretor da Band, Jonh Saad. Os filhos dele ficaram encantados com o CD. Foi ai, que a Band resolveu abrir um novo espaço para mim. A intenção era que o programa fosse entrar em rede nacional já em 97. Mas só agora estou tendo a chance de fazer meu programa para todo o Brasil.
Em tempos nos quais o Ibope dita as regras na tevê brasileira, é possível fazer um programa educacional sem cair no popular e assim mesmo conseguir bons índices de audiência?
Este é meu objetivo. Tenho consciência que o conceito na tevê mudou muito. Não adianta fazer um programa de alta qualidade sem dar algum retorno publicitário para emissora. Vou continuar seguindo a mesma linha: fazer um programa educativo, sem ser tão didático. Se não, reconheço que vira um Telecurso. Por isso, que o meu programa continua tendo entretenimento ligado a conteúdo cultural, informação e diversão. As coisas não precisam ser banais, supérfluas e descartáveis. A cada programa, crianças que se destacarem em diversas áreas vão ser convidadas.
Como você analisa os demais programas infantis?
Não vejo nenhuma preocupação com o conteúdo. Existe sim um marketing de conteúdo. Acontece uma inversão de valores. Se o programa não está dando certo, eles começam abaixar o nível. Estou na contramão da história desde há década de 70. Não digo isto apenas na programação infantil. Falo também de toda grade de programação. Hoje em dia para conseguir índices de audiência no Ibope, tem gente que leva mulheres semi-nuas na banheira sem nenhuma preocupação com quem está assistindo.
Talvez por estas razões você tenha ficado tantos anos fora da tevê....
É possível que sim. Faço um programa voltado para a educação. Poucas emissoras se interessam por isso. Mas tenho que ressaltar que a Band foi a única emissora que não banalizou na programação infantil. Quando sai do ar, eles alegaram na época que iriam investir no esporte. Não foi contratada nenhuma loura.
Existe a possibilidade da Oficina do Daniel Azulay virar diário?
Já venho conversando com a direção da Band para isso. Agora, que o programa está em rede nacional pode facilitar para esta nova mudança. Dependo muito da aceitação do público e também de ajustes na grade de programação. Confesso que gostaria muito que fosse diário. Teria mais tempo para contribuir na criação dos mais jovens.





