Tipos nada ortodoxos caem bem a Sergio Guizé. Basta analisar a breve, porém intensa carreira do ator na televisão para perceber que os protagonistas que ele interpreta nem de perto lembram o estereótipo do herói romântico. O primeiro, Gibão de "Saramandaia", tinha asas; o segundo, o Caíque de "Alto Astral", era um médium. E agora, em "Êta Mundo Bom", vive Candinho, um caipira ingênuo e simpático que só enxerga o lado bom das coisas. "Quando surgem convites para trabalhos, acho que as pessoas já imaginam que eu posso buscar um outro lugar. Se eu pudesse escolher, escolheria esse caminho de busca, de investigação do personagem", salienta.
Cria do teatro, Guizé acumula mais de trinta peças no currículo. E nunca se imaginou fazendo novelas. Até que os convites para a televisão foram aparecendo e um trabalho levou ao outro. No início, o ator se sentia um pouco desconfortável por não compreender muito bem os mecanismos do veículo. "Eu não sabia direito, me sentia meio injusto porque não era meu lugar. Mas vieram convites para personagens incríveis. Quando o papel é legal e o trabalho é legal, não tem como não fazer", explica.
Depois de algumas participações na Globo, integrou o elenco de "Sessão de Terapia", do GNT, até estrear como protagonista em "Saramandaia", de 2013. "Vou me sentir aprendendo, tomara, até o último dia da minha vida. A minha casa é o teatro, tenho um pouco mais de domínio porque fiz mais, mas estou visitando essas outras casas, como o cinema e a tevê, e aprendendo", diz.

O que mais chamou sua atenção em relação a Candinho, seu personagem em "Êta Mundo Bom!"?
Candinho traz toda essa filosofia do Voltaire, de que tudo que acontece de ruim na vida é para melhorar. Apesar de ter sido criado por uma família adotiva como filho até os filhos biológicos nascerem – porque, depois que eles nascem, Candinho é tratado como um serviçal –, ele cuida dos animais sempre com muita alegria. Acho que é o principal ponto da história, de ver tudo pelo lado bom das coisas, apesar de estar tudo ruim. E acredito que essa mensagem da novela veio bem a calhar.

Por quê?
Nesse momento de tantas coisas ruins que a gente tem vivido, poder trazer essa mensagem de esperança e otimismo e ter a possibilidade de me encontrar com o Candinho todos os dias é maravilhoso. Além de trazer os costumes dos anos 1940, os princípios da época. Acho que é fresco para quem está vivendo esse nosso dia a dia.

Como foi sua preparação para o papel?
Li "Candide, ou l'Optimisme", do Voltaire, e quando fiquei sabendo que eu ia fazer a novela, em novembro de 2014, o Jorge Fernando (diretor) me convidou e disse para eu ver as coisas do Amácio Mazzaropi. Eu tinha visto algumas coisas, o meu personagem tem a ver com o Candinho do Mazzaropi, mas foca mais no conto do Voltaire. E quando eu conheci o Walcyr (Carrasco, autor), foi muito legal porque ele me falou de Chaplin. E eu sou o maior fã do Chaplin. Então, fui rever algumas coisas dele, como "Luzes da Cidade" e "Luzes da Ribalta". Tem a coisa do Mazzaropi com o conto do Voltaire, mas a gente está buscando o lúdico e o teatral do Chaplin.

Na televisão, você tem feito protagonistas que fogem do óbvio – já viveu um homem com asas em "Saramandaia", um médium em "Alto Astral" e agora interpreta um caipira otimista em "Êta Mundo Bom!". É uma busca sua?
No teatro, eu fiz mais de 30 peças. Em todas, eu era protagonista e buscava ou pedia para fazer um teste para certos personagens. Na televisão, foi um pouco natural. Se me derem alguma coisa do personagem – no caso do Candinho, ele é um caipira que tem a filosofia do Voltaire –, eu vou tentar fazer do meu jeito e acho que sai naturalmente. Quando surgem convites para trabalhos, acho que as pessoas já imaginam que eu posso ir para esse lugar, que posso buscar um outro lugar. Se eu pudesse escolher, escolheria esse caminho de busca, de investigação, de tentar ler o que o personagem lê, de tentar passar pelos lugares que o personagem passa e imaginar mesmo. Acho que nenhum ser humano é igual ao outro. Então, nenhum papel vai ser igual ao outro. Poder buscar e viver isso de verdade é o grande presente da nossa profissão.

Você estreou na Globo como protagonista de "Saramandaia" e, nos dois trabalhos seguintes, também foi escalado para os papéis principais. De alguma forma, essa trajetória surpreendeu você?
Eu nunca imaginei que ia fazer uma novela. Eu sou de teatro e as coisas foram acontecendo naturalmente. Eu vim fazer a Lorraine, em "Tapas & Beijos" e foi muito legal. Pude desenvolver um personagem que ia ficar um dia só e ficou um ano. Fiz "Sessão de Terapia" com o Selton (Mello) e uma coisa foi puxando a outra. Eu não tive tempo para analisar isso, só estou fazendo. Até porque não parei. Também fiz alguns filmes e não consegui parar. Estou apenas atuando e tentando desenvolver o personagem da melhor forma possível.

Em que sentido?
Eu preciso acreditar no personagem para depois, quem sabe, o público acreditar. Essa é a minha maior preocupação. Fazer com verdade. Porque eu mesmo preciso acreditar. Isso é uma coisa do teatro, inclusive. No teatro, a gente só entra em cena depois de ter ensaiado muito. O que eu saquei na vida de ator é que, se você pisar no palco inseguro, todo mundo vai notar. Mas, quando você tem a propriedade, vai dando certo. E na televisão, a gente vai aprendendo no dia a dia, no fazer, tentando estudar o máximo possível para poder ficar seguro como se estivesse estreando todo dia. No teatro, depois da estreia, a gente vai só lapidando, melhorando. Na tevê, não. Cada dia é uma estreia.

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