Boatos diziam que ele estava mudo. Diziam que ele tinha perdido parte da voz, e que estava com as cordas vocais irremediavelmente maltratadas pela sequência de shows nos EUA e Europa. A apreensão era de que o Foo Fighters iria seguir um repertório 'contido', com músicas semi-acústicas, para preservar a integridade física de seu vocalista.
Mas quem subiu ao palco, na noite de sábado, não era um mero mortal. Quando as luzes se acenderam no primeiro acorde pesado, toda a bagagem musical de Dave Grohl ficou sob os holofotes; ex-baterista do Nirvana e líder, vocalista, compositor e guitarrista do Foo Fighters há 17 anos, Grohl é, no seu próprio nome, um rugido.
A resposta do público foi imediata. Quando o sussuro de ''All My Life'' explodiu em gritos, Dave nem precisava ter voz. As 75 mil pessoas cantaram alto, acompanhando cada batida e virada do Foo Fighters. O peso da banda, formada por Chris Shifflet, Pat Smear, Nate Mendel e Taylor Hawkins aumentou de acordo com a empolgação do público. As primeira cinco músicas foram o cartão de visitas que introduziram a 'pegada' no setlist do Foo Fighters: a sequência arrebatadora de ''Times Like These'', ''Rope'', ''The Pretender'' e ''My Hero'' causou um grande turbilhão no mar de gente. O frenesi foi impressionante.
Surpresos com o tamanho da recepção do público brasileiro, o Foo Fighters não poupou energia na sua performance, que logo ganhou contornos emocionantes. Na hora de apresentar a banda, o guitarrista Pat Smears resgatou seu espírito grunge (do tempo que foi integrante do Germs e do Nirvana) e destruiu sua guitarra no amplificador. No momento seguinte, um coro enorme de ''Taylor...Taylor...'', levou às lagrimas o baterista Taylor Hawkins, que precisou de um minuto para se recompor. Imediatamente depois, marcando a noite épica, Dave Grohl assumiu as baquetas e fez Taylor ir para os vocais na música ''Cold Day in the Sun''.
Com um repertório que passeou por entre todas as épocas do Foo Fighters - com hits e lados 'B' - a mágica da noite parecia traduzida pelos acordes de Grohl; era impossível não sentir que ali, naquele momento, estava acontecendo algo único, sem maquiagem, como um bom show de rock and roll deve ser. Os aplausos eram sinceros; quem estava ao lado do palco, pôde ver um engessado se apoiar na grade, erguer a sua muleta e pular freneticamente. Um milagre do rock, com direito a mais uma guitarra quebrada por Pat Smear. O público, carinhoso, além de entoar por um longo minuto o refrão de ''Best of You'', levantou centenas de plaquinhas escritas ''Oh'' (em referência ao grito da música). ''Porra. Eu amo vocês, de verdade'', declarou Grohl, com lágrimas nos olhos.
No bis - dedicado ao músico Perry Farrel - outro momento especial aconteceu; Joan Jett subiu ao palco para cantar os clássicos ''Bad Reputation'' e ''I Love Rock 'n' Roll''. No fim do longo repertório, o Foo Fighters tocou a clássica ''Everlong'', terminando a noite com chave de ouro, sob aplausos intermináveis.
Após três horas de show, milhares de fãs, roucos e exaustos, se arrastavam até os portões de saída do Lollapalooza com um sorriso no rosto e uma certeza: no sábado pré-Páscoa, um dos messias do rock esteve entre nós. (R.C.)

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