Virou de bom tom sair falando que Beck ‘‘é o máximo’’. A nova unanimidade de crítica e público já não precisa apresentar canções que superem, ou se igualem, em qualidade àquelas reunidas nos álbuns Mellow Gold (94) e Odelay (96), ambos festejados como renovadores do pop com sua colagem de gêneros musicais díspares.
Agora basta lançar um disco mediano recheado de baladas folk, para ganhar nota 10 do distinto público. É o que está ocorrendo com a recepção de Mutations, seu novo trabalho. O disco, produzido por Nigel Godrich (o mesmo de ‘‘Ok Cumputer’’, da banda inglesa Radiohead), acaba de sair no Brasil pela Universal.
Foi lançado pelo minúsculo selo Bong Load Records e depois ‘‘cooptado’’ pela poderosa Geffen, com a qual ele mantém um contrato cuja cláusula permite ao músico lançar o que ele quiser por gravadoras independentes. Nesse esquema, Beck já desovou singles, EPs, além dos álbuns One Foot in the Grave e Stereopathetic Soulmanure.
Atualmente com 28 anos, o artista circula entre a nata culta do pop fazendo juz a seus antecedentes - sua mãe, Bibe Hansen, trabalhou no célebre estúdio Factory, do papa da arte pop Andy Warhol; e seu avô, Al Hansen, integrou o Fluxus, famoso movimento de artes plásticas dos anos 60 de influência dadaísta.
ReproduçãoO melhor do disco de Beck é o encarte com trabalhos visuais de Tim HawkinsonMas Mutations desaponta. É enfadonho, repleto de folk songs para boi dormir. Beck anunciou que seu próximo álbum pela Geffen sai na metade do ano que vem e será eletrônico, agressivo e experimental - ou seja, bem diferente desse ‘‘devagar-quase-parando’’ projeto paralelo.
No Brasil, o CD recebeu atenção extra graças a uma faixa intitulada ‘‘Tropicália’’, que por acaso é a única do disco que saiu em formato de single. Nela o artista tenta incursionar pela bossa nova juntando cuícas, trombone e uma batida programada. Entretanto, mais do que uma eventual homenagem, a canção resultou em pastiche.
Beck não resistiu. Seu namoro com a música brasileira é antigo, tornado público em entrevistas com elogios a Tom Jobim, Jorge Benjor, Gal Costa, Caetano Veloso e Tom Zé. Em Odelay, seu melhor disco, ele já havia inserido um sampler de ‘‘Desafinado’’, o clássico da bossa nova de autoria de Tom e Newton Mendonça.
Há pouco, ele gravou uma música para a trilha sonora do filme ‘‘Por Uma Vida Menos Ordinária’’, também inspirado em referências brazucas. Mas influências musicais à parte, Mutations não decola. É mal-resolvido melodicamente. Não põe ninguém para assobiar suas canções.
Salvam-se ‘‘Cold Brains’’, a faixa de abertura que deixa boa impressão com seu arranjo para guitarra, teclados e harmônica, e ‘‘O Maria’’, com ambientação instrumental sessentista e piano de cabaré. O melhor do CD, na verdade, está no encarte que reproduz sete trabalhos visuais do artista plástico Tim Hawkinson.
Beck caprichou no invólucro. Deve ter agradado a família, que é expert no metiê.ReproduçãoBeck adiou experimentalismos para futuros projetos e lança um disco que chega a ser enfadonhoNelson Sato

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