São Paulo foi onde o movimento tropicalista se concretizou. É onde a mineira Maria Alcina mora há décadas e tem público cativo para suas sempre deliciosas estripulias. Eles vão adorar o novo álbum da cantora, ''Maria Alcina Confete e Serpentina'' (Outros Discos), desde já um dos melhores do ano e um marco de sua carreira de poucos títulos. Tom Zé e Carmen Miranda (1909-1955), outras pontes entre ela, Caetano, Gal Costa, Rita Lee e Nara Leão (1942-1989), reverberam no CD.
Com produção de Maurício Bussab, do Bojo, o álbum foi gravado com muita calma durante dois anos e meio. Mais de 30 canções foram trabalhadas. ''A convivência de longa data com Maurício ajudou a criar uma vontade, musicalmente falando, entre o produtor e a cantora'', diz Alcina. ''Ele é um músico muito sofisticado, diferente de mim, mas a gente forma uma boa dupla.''
Mais tropicalista do que nunca, essa grande foliã da música pop brasileira solta a voz trovejante em meio a um repertório híbrido e de sonoridades modernas e variedade de bons timbres, na produção mais digna que já ganhou. A ousadia está na base, o bom humor é fundamental. É com essas ferramentas que ela e o produtor dão banho eletrônico no nobre do samba Paulinho da Viola (''Roendo as Unhas''), sem deturpá-lo, e pegam o roqueiro baiano Ronei Jorge (''O Drama'') na curva do samba. Armam uma sequencia com um catarinense de Alagoas (Wado, autor de ''Não Pára'') e outro baiano, paulistanizado (Moisés Santana) como Tom Zé, que assina uma inusitada parceria com o mineiro Lô Borges, ''Açúcar Sugar''.
A dupla ainda revitaliza o espírito do cachorro vira-lata, ''sem coleira e sem patrão'', do repertório de Carmen Miranda, com quem Alcina se identifica até a última pluma do boá. Repõe o bloco na rua com Sérgio Sampaio e continua no carnaval com homenagens sacudidas do pessoal da banda Numismata. Adalberto Rabelo Filho, que também sugeriu músicas para o repertório, a presenteou com a marchinha que dá título ao CD e, segundo a cantora, sintetiza seu universo multicor.
No meio dessa folia eletrônica, ela dá ainda uma bela panorâmica na música contemporânea de São Paulo, incluindo os brinquedos de Tatá Aeroplano (do Cérebro Eletrônico), Roseli Martins (autora de ''Regador''), a Banda do Fumaça (na divertida marchinha ''Espaço Sideral'', de Moisés Santana) e a parceria de Alzira E com Arruda (''Colapso'').
Alcina conta que ela e o produtor chegaram ao bom resultado de cada faixa brincando no estúdio. ''A gente passava a tarde inteira numa música só, curtindo a sonoridade. Depois de ter ficado tanto tempo sem gravar, acho isso um privilégio, tendo um produtor do nível de Maurício.
Em 34 anos de carreira, Alcina tem apenas seis discos gravados, incluindo o atual. Nos anos 80 e 90, com apenas um disco em cada década, trocou a carreira de cantora pelo cargo de jurada em programa de calouros na tevê. ''Parei de gravar porque fiquei sem gravadora. O mercado mudou ali, quando estourou a música sertaneja e o resto parou.'' A volta por cima veio com o Bojo em 2003, quando seus dois primeiros álbuns foram lançados em CD com faixas-bônus.
''Fico muito feliz que ela tenha conseguido se alinhar na cabeça das pessoas, de volta, com essa massa de produção arriscada e interessante que está acontecendo em São Paulo agora'', diz Bussab. ''Ela não mereceu o ostracismo em que foi jogada. Primeiro porque ela se mantém tecnicamente em forma. Além disso, é muito bem informada e não tem nenhum ranço saudosista. Sempre aponta pra frente.''

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