Folia de clássicos
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segunda-feira, 04 de fevereiro de 2002
Rodrigo Souza Grota Reportagem Local 
O mês de fevereiro é atípico por conter o feriado mais longo e emblemático do jeito brasileiro de ser e sobreviver o carnaval. Apesar do grande número de adeptos a essa folia, muitos acabam se apegando a outras atividades menos descontraídas e festivas. Uma boa opção a esses reclusos remete a uma safra preciosa de raridades cinematográficas só agora lançadas no mercado brasileiro. Trata-se de uma lista de filmes que incluem clássicos de Buñuel, J.Lee Thompson, Jan Kadar, Elmar Klos, Blake Edwards e ótimas produções dos anos 80, como Breathless, de Jim McBride, e Gosto de Sangue, de Joel Coen.
A primeira grande atração aponta para uma modesta película lançada há exatamente 40 anos Círculo do Medo (Cape Fear, EUA, 105 minutos), do hoje desconhecido J.Lee Thompson. É a primeira versão de um cult adaptado por Martin Scorsese nos anos 80, Cabo do Medo, que aterrorizou platéias bem comportadas ao mostrar um Robert De Niro pedófilo e amoral. A primeira e essencial diferença, entretanto, reside na química entre os protagonistas do filme original, Gregory Peck e Robert Mitchum, bem superiores aos também ótimos De Niro e Nick Nolte. Peck é Sam Bowden, um respeitável cidadão que preza pelos bons valores da sociedade americana. O pesadelo se inicia quando Max Cady (Mitchum) passa a procurar Bowden, tentando resolver uma pendência antiga há alguns anos Cady foi capturado por um crime violento, mas em sua mente ele só foi preso por Bowden não ter se esforçado em sua defesa.
Magnífico roteiro, tão bem desenvolvido por Thompson, um diretor de filmes B que nunca mais iria alcançar tal proeza estética. A fotografia em preto-e-branco realça o suspense que tem seu ápice na atuação de Mitchum, um perfeito outsider do cinema americano. Co-produzido por Peck e Mitchum, Círculo do Medo revela uma América anti-maniqueísta, que aproxima extremos como um advogado pai de família e um assassino amoral. Os dois se utilizam de meios inescrupulosos para atingir o que ambicionam. Como se a América se resumisse a grupos sociais que ou se entregam a uma devassidão absoluta, ou se escondem sob o véu do puritanismo tão falso quanto indulgente. Os extras trazem um ótimo documentário de 30 minutos, sem legendas, que revela toda a técnica artesanal do diretor Thompson, além de incluir galeria de fotos e pôsteres, o trailer original de cinema, notas sobre a produção, o elenco e os realizadores.
Outro filme inédito no mercado brasileiro também tem seu lançamento tardio, The Shop On Main Street, da dupla Jan Kadar e Elmar Klos. O filme é de 1965 e foi o grande vencedor, no ano seguinte, do Oscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de uma cópia restaurada, oferecendo a comovente saga de um camponês tcheco que se encontra dividido entre a ganância e a culpa quando os nazistas tentam seduzir a viúva de uma loja de botões. É um filme político, de esplendor visual exemplar, seguindo a tradição francesa que por mais de uma vez delatou os compatriotas que colaboraram com os invasores nazistas. Apenas um extra, o trailer original do cinema.
Saindo da esfera dos inéditos, está A Força do Amor (1983), do então jovem Jim McBride. É certamente um dos três melhores filmes de toda a carreira do galã Richard Gere ao lado de Cinzas do Paraíso e Dr.T e as Mulheres. Produzido em 1983, vinte e poucos anos após o filme que lhe inspirou (Acossado, de Jean-Luc Godard), Breathless é uma homenagem a todo o frescor da nouvelle vague, aquela onda que mudou o cinema nos anos 60. Histórias em quadrinhos, ritmos alucinados, heroínas corajosas e descontraídas todo o repertório daquele novo cinema francês está nesse filme que McBride realizou sem concessões. O título brasileiro é um grande equívoco, e Breathless (nome de uma música do grande Jerry Lee Lewis) merece uma revisão crítica que possa ampliar todo o charme oferecido pelo filme. Os extras do DVD se resumem a apenas um trailer original do cinema.
Se você estiver procurando uma fábula mais indireta, sugestiva, que provoque reflexões refinadas, basta procurar os primeiros lançamentos do mestre espanhol Luis Buñuel em formato digital. Dois de seus últimos filmes chegam ao mercado revitalizados, devido à atualidade das tramas e aos extras que revelam todo o processo criativo do autor de Um Cão Andaluz. Tanto O Discreto Charme da Burguesia (1972) como Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977) merecem ser revistos nesse contexto em que nos encontramos, perdidos em nossas ideologias religiosas e ausentes de qualquer postura política sincera. Nos extras, várias preciosidades: os documentários El naufrago de la calle de Providencia e A Proposito de Buñuel; vídeo-entrevista com o roteirista Jean-Claude Carriere; e trechos do filme mudo La Femme et le Pantin (1929), de Jacques de Baroncelli, uma produção que oferece uma rara entrevista de Buñuel.
Na contramão do cinema do espanhol, um diretor que construiu um escapismo digno de reverências. Blake Edwards não foi tão profundo como J.Lee Thompson, Buñuel, Jan Kadar ou Elmar Klos, mas soube atribuir às comédias um tom satírico que subtraía à razão qualquer predomínio estético. Em Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, EUA, 1968, 99 min), o diretor conduz Peter Sellers em uma das mais elogiadas perfomances do britânico que nos seduzia pela suavidade. Sellers é o desastrado que em meio à tanta benevolência acaba perpetuando o desastre em sua volta. Comédia por vezes silenciosa, sofisticada e emblemática de um humor que não existe mais. Nos extras, apenas o trailer original do cinema.
Para encerrar um fim de semana prolongado de carnaval, uma boa pedida pode indicar o thriller Gosto de Sangue (The Blood Simple, EUA, 1983, 96 min), dos irmãos Coen, como um prazeroso passatempo. Fãs do cinema noir americano, os Coen recriam toda a atmosfera mórbida, obscura e tortuosa de uma sociedade americana que não esconde os sinais de sua sangria. Frances McDormand, John Getz, M. Emmet Walsh são alguns dos atores que compõem esse jogo de traições macabro. Esse longa de estréia dos Coen estava prejudicado no Brasil por uma cópia modesta em VHS. Agora recebe tratamento digital, incluindo uma versão do filme comentada por Kenneth Loring (do Forever Young Films), trailer original do cinema e notas de produção.
Se os filmes não trouxerem o mesmo frenesi dos bailes de carnaval, ao menos uma experiência íntima e estimulante fará parte de sua memória. Sem contar a ressaca que de maneira alguma poderá ser produzida por uma dessas projeções.


