Por cinco décadas, dos anos 20 aos 70, os foliões ''pularam'' o carnaval ao ritmo de sambas e marchinhas que entraram para a história. Retratavam um jeito brasileiro mais simples e bem-humorado de ser, com toques de malandragem e salpicos de ingenuidade. Os tempos eram outros, sem dúvida, mas havia problemas e dificuldades como sempre. Consciência pesada, por exemplo: ''Se é pecado sambar'', defendia-se Manoel Santana em samba de 1951, ''a Deus eu peço perdão / eu não posso evitar / a tentação.'' Para Noel Rosa, em 1931, a dificuldade estava na roupa: '' Pois esta vida não está sopa / e, agora, com que roupa eu vou / pro samba que você me convidou / com que roupa eu vou ? / pro samba que você me convidou.'' Um pouco mais tarde, em 1937, Assis Valente sugeriria o figurino ideal: ''Vestiu uma camisa listrada / e saiu por aí / em vez de tomar chá com torrada / ele tomou Parati /levava um canivete no cinto / e um pandeiro na mão / e sorria quando o povo dizia / sossega, leão, sossega, leão.''
Assim como hoje, sair para a farra significava, também naqueles tempos, a possibilidade de encontros e, mais comum, de desencontros. ''Um Pierrot apaixonado'', lembram Heitor dos Prazeres e Noel Rosa, em marchinha de 1935, ''que vivia só cantando / por causa de uma Colombina / acabou chorando / acabou chorando.'' Mas - ''ai, ai, ai, ai'' - e quando chegava o momento de ir embora? Henricão e Rubens Campos diziam em 1942 que não havia jeito, ''quem parte leva saudades / de alguém, que fica / chorando de dor / por isso, não quero lembrar / quando partiu meu grande amor.'' Tantas eram as emoções que até a morte já não assustava tanto: ''Amei e fui amado / beijei a quem bem quis / se eu morrer amanhã de manhã / morrerei feliz (bem feliz!)'', conforme explicavam Garcia Júnior e Jorge Martins em samba de 1961.
A farra interferia na produção, no dia-a-dia do trabalho, mas o folião não ligava e ainda filosofava, como Arlindo Marques Jr., Roberto Roberti e Wilson Batista, em samba de 1955: ''Quando a fábrica apitar / eu quero estar na orgia / o patrão já disse / que eu, em fevereiro /faço a greve da alegria.'' O momento era perfeito para valorizar certos costumes ou fazer algumas reinvidicações. ''Ela quando passa, provoca / sem ela a orquestra não toca / já estou cansado de pedir / tomara que caia - me parece, vai cair... / CAIU!!!'', dizia a marchinha de Hélio Sindô e Oswaldo Santos, em 1953, referindo-se àquele novo tipo de decote, sem alças, que as mulheres haviam passado a usar.
O divórcio só seria regulamentado em 1977, mas desde 1954 Átila Nunes e Alcebíades Nogueira apelavam às autoridades por meio de um samba: ''É natural entre um casal / de vez em quando um nhenhenhem / mesmo assim / já é demais, não fica bem / por qualquer coisa, a toda hora / ela quer brigar / seu deputado / deixa o divórcio passar.'' Neste mesmo ano, as conquistas da medicina eram objeto de espanto. Contudo, havia espaço para um certo desdém, como cantava Linda Batista na marchinha : ''Ai, penicilina cura até defunto / petróleo bruto faz nascer cabelo / mas ainda está pra nascer o doutor / que cure a dor-de-cotovelo''.
Coração de mãe já não se enganava desde aquela época, 1953, de acordo com J.B. Bitencourt, D. Gonçalves e B. Moreira: ''O Juca / não é flor que se cheire / mamãe já disse / com ele você não vai / ele gosta de brincar, lá no balanço / tanto balança / que um dia você cai.'' E quedas ocorriam, mas não por falta de aviso de ''amigos da onça'', como nesta batucada de 1941, de Roberto Martins: ''Cai, cai, cai, cai / eu não vou te levantar / cai, cai, cai, cai / quem mandou escorregar.'' Mas se é o sereno que vem caindo, isso pode resultar em um samba romântico, como este, datado de 1966 e assinado por Adil de Paulo e Noel Rosa de Oliveira: ''Deixa dormir em paz / que uma noite não é nada / não acorde meu amor / sereno da madrugada!''. Ou neste outro, de Manoel Ferreira, Antônio Mojica e Gaúcho, gravado em 1958, em que cair - quase nada - se traduz numa oferta de aconchego : ''Queria ver você cantando / sempre sorrindo / alegre como outrora / mas já que você quer chorar / encosta a cabecinha / no meu ombro e chora.''
Do Brasil para o mundo, mas com passagem de volta garantida. Afinal, e o samba? E o carnaval? E Peri e Ceci? Benedito Lacerda e Herivelto Martins fizeram uma marcha, nos idos de 1940, em que brincam com a idéia de um brasileiro no carnaval de Veneza. Com muitas saudades daqui, ele resolve entrar no cordão e cantar, parodiando os de lá: ''Iamo, iamo, iamo, iamo, iamo / iamo, iamo, iamo, iamo, iá / funiculí, funiculá / fuiniculí, funiculá''. O que ele conseguiu? Os italianos ''atacaram a tarantela / e não quiseram mais parar!''.
Outro brasileiro tinha ido a Madri, em 1938, para ver as touradas. Na marcha de Braguinha e Alberto Ribeiro, a descrição chega em meio a um ''parará tim bum, bum, bum'': ''Lá eu conheci uma espanhola / natural da Catalunha / queria que eu tocasse castanhola / e pegasse um touro à unha / caramba / carambola / eu sou do samba / não me amola / pro Brasil eu vou fugir / que isto é conversa mole / para boi dormir.''
''Barra limpa'' era gíria da jovem guarda, com suas calças boca de sino, cabelos longos, rebeldia. A marchinha de 1966, porém, não deixou por menos e brincou com o sentido da palavra: ''Marinheiro que anda na proa / olha a barra pra ver como vai / quando a barra está limpa, ele entra / mas se a barra é pesada, ele sai...'' Em 1955, segundo Hervê Cordovil, o pessoal estava de olho no espaço e em possíveis visitas, que não seriam assim tão bem-vindas, pois a concorrência tendia a ser desleal: ''Desceu um disco voador / na praia do Arpoador /e um marciano quis / pescar uma sereia, na areia / essa gente é muito forte / a turma lá de Marte / é de morte.'' Mas, neste mesmo ano, os foliões bem que podiam estar de olho no passado. Afinal, carnaval também é cultura e como ensinava a marchinha: ''Colombo ficou na história / e famoso hoje é / porque descobriu a América /e botou um ovo em pé.''
Calor e falta d'água costumavam andar juntas. A marcha de Paquito e Romeu Gentil pedia: ''Tomara que chova / três dias sem parar.'' Mais à frente, justificava: ''Trabalho não me cansa / o que cansa é pensar / que lá em casa não tem água / nem pra cozinhar.'' Em 1940, Haroldo Lobo e Nassara imaginavam-se em um lugar escaldante: ''Atravessamos o deserto do Saara / o sol estava quente e queimou a nossa cara / Allah-la-ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô / mas que calor, ô, ô, ô, ô, ô, ô.'' Outra preocupação era com a moradia, a dureza de ser inquilino nos anos 40 e o proprietário querer a casa de volta. Paquito e Romeu Gentil tomaram a defesa dos injuriados, cantando ''Daqui não saio / daqui ninguém me tira / onde é que eu vou morar? / o senhor tem paciência de esperar / ainda mais com quatro filhos / onde é que eu vou parar?''.
O amor e as mulheres, no entanto, são os temas preferidos de todos os tempos. Ataulfo Alves e Mário Lago admitiam em samba de 1944 que ''Covarde eu sei que me podem chamar / porque não calo no peito esta dor / atire a primeira pedra, ai, ai, ai / aquele que não sofreu por amor.'' Sandoval e Carvalhinho, na marcha de 1956, também confessavam que, apesar de todas as agruras, ''Quem sabe, sabe / conhece bem / como é gostoso / gostar de alguém.'' E entre Auroras e Amélias, as mulheres sempre musas do carnaval eram ''cantadas'' no melhor sentido da palavra... ou do verso, neste caso de Benedito Lacerda e Humberto Porto: ''Vem jardineira / vem meu amor / não fique triste / que este mundo / é todo teu / tu és muito mais bonita / que a Camélia / que morreu.''
Para a despedida desses anos dourados, nada mais justo do que recorrer a Noel Rosa, malandro, boêmio e um primor de simplicidade em sambas que fizeram aflorar o melhor da alma do brasileiro: ''Até amanhã / se Deus quiser / se não chover / eu volto pra te ver / oh, mulher / de ti gosto mais que outra qualquer / não vou por gosto / o destino é quem quer / até amanhã...''

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