Curitiba - Existe um vírus que ataca nessa época do ano e provoca quase uma epidemia. Os médicos ainda não sabem explicar porque apenas algumas pessoas são acometidas pelos sintomas causados por ele, enquanto outras seguem completamente imunes. Os sintomas, aliás, podem variar desde ansiedade, taquicardia, insônia e um desejo enorme de se fantasiar e sair dançando. Pode ser na avenida ou num clube. A catarinense radicada em Curitiba Eudina Duarte Prestes, mais conhecida como ''dona Ondina'' sofre da ''doença''. Às vésperas de completar 80 anos, ela esbanja saúde, mas tem todos os indícios de quem foi acometida pelo ''vírus do Carnaval''.
Apesar da idade avançada, é capaz de passar 12 horas seguidas sentada na máquina de costura, confecionando as mais de 600 fantasias da Escola de Samba Embaixadores da Alegria, e confessa: ''gosto de costurar, mas minha maior alegria é quando chega a hora dos desfiles''. Há 23 anos, ela desfila na ala das baianas da escola e nunca faltou a uma festa de Carnaval. ''Meu marido é que gostava e acabou me levando, mas eu gostei tanto que mesmo depois que ele morreu continuei participando. E a família inteira vai, meu filho, minha nora e até o meu neto'', conta.
O neto, aliás, que atualmente ajuda nos preparativos da escola, iniciou na festa carnavalesca com apenas seis meses. ''Ele ficava no moisés quietinho enquanto nós costurávamos'', orgulha-se dona Ondina. ''Cada dia de preparativo é uma luta. Mas na hora do desfile é quando eu choro. E eu sempre choro'', emociona-se. A emoção permanece só de pensar no próximo do desfile e nem mesmo o fato da festa na avenida ter se reduzido a apenas um dia tira o fôlego da carnavalesca. ''Nós trabalhamos tanto durante o ano que é uma pena não ter os quatro dias de desfile. Mas tudo bem, se é pra festejar, vamos festejar nem que seja por uma hora'', anima-se.
Ondina e outras voluntárias da Escola Embaixadores da Alegria começaram a trabalhar efetivamente nas fantasias, cujo tema este ano é ''Água: Essência da vida'', há pouco mais de um mês. Faltando poucos dias para o Carnaval começar, o ritmo dos voluntários fica cada vez mais frenético no barracão da escola: ''A gente começa às 8h30 e vai até quando aguenta. Só paramos depois das 21 horas''. A companheira de costura de dona Ondina, Ana Pereira, de 61 anos, também entra no ritmo. Esquece os problemas cotidianos, a pouca verba pública para o Carnaval e concentra-se apenas nos acessórios e figurinos da escola. Natural de Minas Gerais, ela está há 26 anos em Curitiba e há 13 participa dos desfiles carnavalescos na capital.
Os preparativos são uma festa e um empenho à parte. A figurinista ''Baby'', que prefere não dar seu nome completo, trabalha este ano para duas escolas. Passa o dia no barracão de costuras da Embaixadores da Alegria e a noite, em casa, vira madrugadas sem dormir costurando para Escola Batel, de Antonina. ''Mas no dia do desfile, meu coração está com Embaixadores e é com ela que eu saio'', afirma. A maior dificuldade, segundo a figurinista está na confecção dos acessórios, que têm muitos detalhes e exigem cuidado. Este ano, o desafio da carnavalesca está sendo um fantasia de 3 metros e 20 cm que ela vai vestir, em cima do carro alegórico, no dia do desfile.
A escola Embaixadores da Alegria é bicampeã do Carnaval curitibano, mas o vice-presidente da escola Antonio Carlos de Goes, de 41 anos, salienta que a premiação não é única coisa que as escolas esperam. ''O que importa é ver o povo feliz. É a alegria e diversão. Desfilar no Carnaval é uma terapia'', revela o chef de cozinha que há quase 30 anos troca as receitas culinárias pela plumas das fantasias nessa época do ano. ''O Carnaval é um teatro aberto e aqui em Curitiba é uma festa essencialmente do povo'', considera,
Este ano o desfile das sete escolas da Capital vão acontecer no dia 25 de fevereiro. É a data mais esperada do ano pelos milhares de apaixonados pela festa mais popular do Brasil. ''O Carnaval é o único evento público que restou em Curitiba. Nem Revéillon na rua tem mais, por isso, a cidade merece o esforço por parte desses 'resistentes''', argumenta o dentista Paulo Roberto Scheunemann, de 43 anos, presidente da escola de samba curitibana Acadêmicos da Realeza. Criada há nove anos, a escola já foi campeã por cinco vezes e em três anos ganhou o prêmio de terceiro lugar no evento. Este ano, a escola vai para avenida com o tema ''O maravilhoso mundo dos bois'', que conta a história do Festival de Parintins, na Amazônia, e aborda a cultura do boi-bumbá.
O enredo da escola, assim como acontece na maioria das instituições, foi definido em junho do ano passado e no final de 2005 os integrantes já começaram os preparativos para a festa de 2006.

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