Fôlego novo na MPB
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O apocalípticos que esperavam uma derrocada da MPB nos anos 90 vão ter que esperar. A supremacia das fusões, do rock/pop e do som eletrônico na década não representaram a falência de um estilo que, em seu sentido atual e restrito, se configurou a partir da Bossa Nova, no final dos anos 50. Musiqueiro, disco de estréia de João Suplicy, mostra que a Música Popular Brasileira continua influenciando gerações.
No álbum, Suplicy agrega referências que vão de Bob Marley ao Tropicalismo, com soul, samba-funk e até Jovem Guarda. Irmão do roqueiro Supla, João Suplicy se dedica a uma sonoridade bem brasileira - acrescentada de influências periféricas - e surpreende em algumas canções com doses de criatividade.
Foi difícil escolher o repertório para o primeiro CD porque eu já tenho um acervo grande de músicas. Mas fiquei satisfeito com o resultado, comenta o cantor e compositor em entrevista por telefone, lembrando que o CD, distribuído com apenas dez músicas, evita o excesso de informação, pois há grande diversidade entre as faixas.
Creuza abre o disco e traz um suingue samba-funk que lembra o antigo Jorge Ben. A tendência é confirmada em Vozes, inclusive na batida da guitarra. A terceira música, Gira-Vira, começa com uma levada soul que ganha percussão de samba.
O ska aparece em Pra se Perder, com a presença de um bom naipe de metais. Entre os destaques, está Armando a Feira, um reggae reprisado no fim do disco como ghost-track. O refrão é crítico: Bunda de mocinha/ Bunda de adolescente/ Bunda pra vender revista/ É bunda pra virar artista.
Há também samba-canção em Daqui a um Minuto, mais ska em Gibi e ritmos caribenhos - marcados pela marimba de Guga Stroeter - e pitadas de jazz/blues na boa Dá-lhe o Bote. A faixa-título aparece com participação de Swami Jr., que carrega os arranjos no violão de sete cordas. Depois de tanto crossover, o CD fecha com O Rio, uma balada melancólica.
Eu gostei também porque não ficou aquele disco que você escuta e acha que todas as faixas são a mesma música. A cada uma foi dado um tratamento, uma roupagem para não para vendê-las a um padrão pressuposto. É um clima mais ao vivo, mais visceral, tudo é tocado, ressalta João Suplicy.
O músico toca violão desde os dez anos de idade, e chegou a receber um convite para gravar pela Sony quando tinha 17. Recusou porque não via maturidade em seu trabalho. Depois seguiu para o Guitar Institute of Technology, em Los Angeles, e passou mais cinco anos estudando no Rio de Janeiro, até gravar o CD.
João Suplicy se mostra cuidadoso e sem grandes pretensões inovadoras. Seu disco apresenta uma certa falta de costura que pode surgir com a maturidade. Ainda assim, Musiqueiro envereda por caminhos que apresentam sonoridades interessantes e boas perspectivas. O disco saiu pela ST2 Records e pode ser adquirido no site www.st2.com.br.





