Se o colonizador europeu deixou de levar em conta a cultura local dos povos indígenas, fechados em sua superioridade branca, os povos das nações indígenas sempre estiveram abertos à troca de experiências, incorporando o que era diferente de sua cultura.
Nesses 500 anos de invasão - se pensarmos a questão pelo ponto de vista do índio - a arte brasileira, a partir do modernismo, foi capaz de assimilar várias tendências da arte internacional, mas ainda não conseguiu incluir, nem mesmo na aparência, nenhuma forma das experiências estéticas daqueles que já viviam aqui antes da chegada da frota portuguesa.
A exposição + 500 - Mostra do Redescobrimento, que substitui a Bienal Internacional de São Paulo este ano e vai até setembro, dedica um prédio inteiro para abrigar as manifestações visuais dos índios brasileiros, em um local denominado ‘‘Oca’’. Mantos de plumas, objetos ritualísticos, cerâmicas ancestrais, arte de várias nações indígenas do Brasil. Sim, do Brasil, embora pareça que somos estrangeiros, ou habitantes de outro planeta - surpresos com a beleza dos trabalhos feitos aqui - tamanha nossa distância cultural.
Para eles não existe diferença entre arte e vida (que a arte contemporânea também busca abolir) porque sua religião não prega a expulsão de nenhum demônio do corpo. Porque não há separação entre Deus e o homem. Seu mundo espiritual e seu mundo material fazem parte da mesma natureza. Sua percepção dos fenômenos é cósmica.
Mas se nós não conseguimos incorporar a cultura deles, eles, quando incorporam a nossa, o fazem com resultados magistrais, como alguns dos desenhos lá expostos. A liberdade gráfica é comparável a qualquer dos nossos melhores mestres. São trabalhos em que a alma indígena se apropria das técnicas vindas de fora - como no uso do papel, da tinta nanquim e do pincel - para criar verdadeiras obras-primas. Por ser uma criação desvinculada das funções ritualísticas ou utilitárias, conseguimos nos relacionar com aquela arte de maneira harmoniosa e familiar. É assim que uma cultura é miscigenada a outra.
500 anos de desprezo e violência contra outra cultura e só agora começamos a dar conta de sua importância e valor, porque percebemos que desde há muito tempo estão à nossa frente, por estarem onde sempre estiveram, ligados à terra.
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