'Foi Apenas Um Acidente': uma Palma de Ouro contra as ditaduras
Filme do diretor Jafar Panahi, que estreia nesta-quinta-feira (4), incluindo Londrina, reafirma o cinema como ato de resistência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de dezembro de 2025
Filme do diretor Jafar Panahi, que estreia nesta-quinta-feira (4), incluindo Londrina, reafirma o cinema como ato de resistência
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

“Foi Apenas um Acidente”, em lançamento em Londrina, é demolidora mas honesta fábula moral sobre a repressão política no Irã e as feridas sociais que corroem um país.
Num país onde o silêncio foi brutalmente imposto, Jafar Panahi, 65, ergue mais uma vez sua voz das sombras. Seu novo filme, "Foi Apenas um Acidente" - que estreia nesta quinta (4) - não é apenas um filme: é uma declaração de existência, uma reafirmação do cinema como ato de resistência e como arquivo da memória. Após mais de uma década de prisão domiciliar, perseguição e censura, Panahi retorna com uma obra intensa, emotiva e menos contida do que seus filmes anteriores. Mas a mudança não é meramente formal: é política, visceral, uma resposta direta ao medo que durante anos tentou paralisá-lo. Nas palavras do próprio Panahi, "o ato de filmar tornou-se minha única maneira de respirar livremente". E isso se sente em cada plano, cada grito, cada decisão narrativa deste filme.
"Foi Apenas um Acidente" mergulha no caos emocional de uma sociedade dividida entre a necessidade de justiça e a incerteza moral. A premissa é tão simples quanto poderosa: um homem, Vahid, acredita reconhecer em outro homem – um pai de família comum – o agente que o torturou anos antes. Sem certeza absoluta, guiado apenas pelo som de uma perna protética rangendo, ele decide sequestrá-lo e buscar confirmação com outros sobreviventes das prisões.
ODISSEIA POR TEERÃ
O que se segue é uma odisseia frenética pelas ruas de Teerã e pelo deserto iraniano, onde vítimas e executores trocam de papéis, onde a memória se confronta com a raiva e onde o espectador é compelido a questionar se é possível alcançar a justiça sem repetir os métodos do executor. Panahi reconhece que sua experiência na prisão de Evin alimentou essa história. Embora não detalhe em entrevistas e declarações as torturas que sofreu, ele admite que a experiência o transformou e que a violência institucional deixou marcas difíceis de traduzir em imagens sem recorrer à propaganda. Neste filme, porém, ele adota conscientemente um tom mais direto, incluindo até momentos de humor absurdo que, longe de diminuir a seriedade, reforçam a natureza trágica da narrativa.
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O resultado é um filme perturbador, por vezes excessivo, mas sempre honesto. Uma obra que levanta questões difíceis sobre vingança, justiça e memória. O que fazemos com nossa dor quando o sistema que deveria curá-la é o mesmo que a causou? É legítimo fazer justiça com as próprias mãos se as instituições falharam? E que espaço resta para a empatia quando todos carregamos feridas abertas? O filme também se envolve em autorreflexão. Vahid e seus companheiros improvisam julgamentos, debatem métodos e até encenam suas ações em uma performance grotesca, como se até os mais oprimidos pudessem reproduzir as estruturas de poder que os prejudicaram.
Mais ou menos como se as cicatrizes da repressão enfrentassem o dilema ético da justiça.
O DIRETOR
Panahi retorna ao cinema a partir de uma perspectiva de questionamento, e não de denúncia. O filme sugere que o silêncio não é mais uma opção e que a liberdade se define não apenas pela transposição de fronteiras, mas pela capacidade de contar a própria história sem pedir permissão. Nesse sentido, o acidente do título não é a colisão em si, mas o que acontece depois: quando alguém decide que sua história não será mais contada por outros.
Panahi permanece um dos cineastas mais corajosos do Irã contemporâneo. E "Foi Apenas um Acidente" é talvez seu filme mais emocionalmente explícito. Um lamento de raiva, sim, mas também uma elegia por tudo o que foi perdido: verdade, justiça, dignidade. Diante de um regime que nega a história, ele a coloca na tela. Diante do esquecimento imposto, ele responde com o cinema. Com esta obra, Panahi nos lembra que cinema não é feito apenas de imagens, mas de convicções. E que, em tempos sombrios, a câmera não é apenas um artefato estético: é uma lanterna, um espelho. Uma arma.





