Foco impressionista
Giordani Rodrigues
De Curitiba
Especial para a Folha2
Aos 17 anos ele teve um caso com o pintor espanhol Salvador Dalí, do qual resultou um filho. Percebendo o absurdo que era dois homens gerarem uma criança, eles resolveram cometer infanticídio. Amargurado, partiu em busca da obscuridade voluntária, indo parar no Tibete, onde morou por dois anos. Depois de uma rápida passagem por Munique, trabalhando como cantora de cabaré, ele foi morar no Rio de Janeiro e ingressou no Banco do Brasil, onde se aposentou precocemente devido a problemas psiquiátricos, não sem antes ter adquirido uma moderna Kodak Instamatic.
A história acima resume a vida do fotógrafo Haroldo Viegas, de 48 anos, e foi contada por ele mesmo. Obviamente, é uma brincadeira, uma ficção tresloucada. Mas, ao contá-la, Haroldo deliberadamente exagera no surrealismo, citando até mesmo um dos fundadores do movimento, com o propósito de demonstrar que o que se chama de realidade, verdade, não passa de uma interpretação que fazemos acerca da vida. A história acaba dando pistas de duas características marcantes nos seus trabalhos: a iconoclastia e a forma sui generis com que interpreta a realidade, modificando-a e retirando dela apenas aquilo que lhe interessa.
Estas características podem ser encontradas tanto em suas fotos como em trabalhos mais recentes gráficos produzidos com auxílio de computador e scanner. Não entendo a fotografia como uma reprodução da realidade, e sim como um instrumento de criação de outra realidade. Meu interesse pela fotografia é muito mais pela abstração do que pela documentação. É pegar um detalhe do degrau de uma escada, por exemplo, e criar uma coisa nova, inusitada, esclarece.
Exemplos de sua técnica encontram-se facilmente. Um deles, radical, está em uma foto que fez de um parafuso, revelada em cromo. Riscando o cromo, Haroldo transforma o objeto numa torre com janelas, e o fundo passa a ser uma imitação de paisagem. O efeito é desconcertante: ninguém imagina que ali está a fotografia de um prosaico parafuso. Utilizando baixa velocidade, ele produziu uma série de fotos que denominou de mexidas, criando um belo efeito que lembra a pintura impressionista. Os traços se associam para formar mais um esboço de pessoas e paisagens do que um registro realista.
Tais artifícios não são novos ao contrário, qualquer fotógrafo experiente os conhece. O que torna único o trabalho de Haroldo Viegas são a criatividade e a sensibilidade com que utiliza as várias possibilidades oferecidas por uma câmera, um filme e a interferência humana.
Apesar de 30 anos de trabalho, período em que calcula já ter produzido mais de 20 mil fotos, a maioria em cromo, Viegas é praticamente inédito, um pouco por sua própria culpa. Sou completamente inepto para lidar com questões como a organização de uma mostra e toda a parte prática e burocrática envolvida nisso, revela. Mesmo assim, fotos suas já foram esporadicamente expostas e atualmente algumas delas aguardam seleção em concursos do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de Brasília, da Casa da Gravura em Curitiba e da Milkphotos, na Austrália.
Chama a atenção também a enorme facilidade com que distribui ou destrói seus trabalhos: de tudo o que já produziu, restam apenas uns 6 mil cromos. Felizmente, seu ímpeto criador é ainda maior do que seu espírito niilista.
Atualmente, dedica-se à criação de gravuras com a interferência do computador. Aqui também ele inova. Muitas de suas figuras são originadas de pessoas, ou melhor, partes delas, copiadas diretamente no scanner. São rostos, braços, bocas, que, trabalhadas em programas gráficos, adquirem forma e significado completamente novos.
Ele próprio serve como modelo, amiúde. Há vários auto-retratos cibernéticos, cujos significados sugerem um turbilhão de forças psíquicas em ação. O Suicídio Virtual, por exemplo, é um perfil de seu rosto, tomado com o auxílio do scanner, e modificado no computador. Distingue-se uma face, com toques que remetem à pintura de Van Gogh, e um orifício no centro da cabeça, em que se destacam estruturas mimetizando vísceras cerebrais.
Para quem gosta de biografias mais verossímeis do que a citada inicialmente, Haroldo Viegas é paulista e está morando pela terceira vez em Curitiba, há cerca de um ano. Viajou inúmeras vezes por todo o País, captando cenas singelas, sempre com seu olhar aguçado. Realmente morou no Rio e trabalhou no Banco do Brasil. Atualmente, é o maior fotógrafo do Butiatuvinha, bairro contíguo ao de Santa Felicidade, onde se refugia. Até que alguém o descubra.O fotógrafo paulista Haroldo Viegas questiona a realidade por intermédio de imagens absurdas
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