Foco emergente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Mariana Trigo <br> <br> TV Press 
Os temas atuais da teledramaturgia têm sido pensados para criar cada vez mais identificação com a chamada ''nova classe C'' nas tevês abertas. Próspera e voraz como consumidora, ela está na mira dos anunciantes de produtos populares, de setores como supermercados e lojas de eletrodomésticos. E contribuem para alimentar o ávido consumo dessa classe que, segundo o diretor geral da Globo, Octávio Florisbal, quer passar a ser retratada em histórias que mostrem seus cenários e cotidiano. Mas a certeza de que a classe C quer se ver na teledramaturgia só deverá ser confirmada a longo prazo, com a comparação geral de audiência entre as tramas.
Mas este crescente interesse da Globo em investir nesse setor se deve também à boa e estável audiência de programas que retratam a classe C, como ''A Grande Família'' e ''Tapas & Beijos''. E também em novelas como ''Avenida Brasil''. Na história, Murilo Benício interpreta Tufão, um ex-jogador de futebol bem-sucedido, que prefere continuar morando no subúrbio. Seu núcleo, porém, denota uma visão preconceituosa a respeito da ''nova classe C'', ao mostrar suburbanos sempre aos gritos e desprovidos de qualquer estofo cultural e acadêmico.
Já em ''Cheias de Charme'', os autores estreantes Filipe Miguez e Izabel de Oliveira retratam o universo das domésticas, a vida no morro e a alusão a ritmos populares, como kuduro, eletroforró, tecnobrega e sertanejo universitário, entre outros. ''A Globo está mais preocupada com a popularização do conteúdo. Desde que a economia brasileira se estabilizou e a classe C se destacou com maior poder de compra, temos de direcionar nossa teledramaturgia para esse público'', ressalta Florisbal.
No entanto, para o autor Lauro César Muniz, que acaba de estrear a novela ''Máscaras'', na Record, ''essa nova classe C'' que possui uma renda familiar com teto de pouco mais de R$ 5 mil por mês, sempre prestigiou as tramas que mostram as classe mais abastadas, com temas mais analíticos, políticos ou glamourosos.
Segundo Lauro, a diferença é que nas décadas de 70 e 80, o público mais desprovido assistia às novelas em pequenos televisores preto e branco, enquanto as classes favorecidas viam em tevês a cores. ''Eu navego contra a corrente dessa popularização. A classe C está sendo chamada de idiota, anestesiada pela enorme quantidade de má dramaturgia nacional e americana. Temos de voltar a produzir novelas de qualidade, como nas décadas de 70 e 80'', critica o autor.
Segundo João Emanuel Carneiro, de ''Avenida Brasil'', e os autores estreantes Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, que assinam ''Cheias de Charme'', ambas na Globo, nenhuma das tramas foi uma ''encomenda'' ou ''imposição'' de roteiro estabelecido pela direção da emissora para fisgar a classe C emergente. Mas, obviamente, ao saberem o interesse da emissora neste segmento, os autores passaram a direcionar suas sinopses com tramas voltadas para esse público.
Para Izabel de Oliveira, a intenção foi falar sobre brasileiros que têm mudado de vida nos últimos 10 anos. Eles tiveram um aumento de poder de compra, o que faz com que também comecem a eleger modismos, como os ritmos mais populares que embalam a história. ''Eu e o Filipe queríamos falar sobre a autoestima dessa nova classe social. Mas a novela é para todo mundo'', explica Izabel. ''A emissora não me pediu nada. Nenhuma encomenda me foi solicitada. Escrevi sobre a efervescência do consumo e do poder de compra dessa 'nova classe C'. Mas o meu subúrbio é inventado sem compromissos sociológicos'', jura João Emanuel.
Mesmo diante da negação de encomenda de sinopses pelos autores, fica evidente que o que move as emissoras a investirem nessa popularização é atrair os anunciantes desse público que já chega a mais de 110 milhões de pessoas. No mercado de tevê por assinatura, por exemplo, o caminho é semelhante.
Em 2008, a classe C representava 17% dos assinantes, enquanto que em 2010 essenúmero passou para 21%. Atualmente, a tevê paga está com 13 milhões de assinantes e tem perspectiva de crescimento para 24 milhões até 2015. ''Atualmente a nova classe C também tem tevê por assinatura. Fazer uma trama sobre esse público e no subúrbio faz com que a novela tenha um colorido que 'A Favorita' não tinha. Eu não escolhi falar sobre o futebol, por exemplo, mas aderi por ser bem popular e retratar o cotidiano da nova classe C'', explica João Emanuel.


