FML: tocando em frente há três décadas
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sábado, 24 de julho de 2010
Adriana Ito<BR> Reportagem Local 
Em sua 30 edição, o Festival de Música de Londrina tem muitos motivos para comemorar, mas o principal deles é o fato de ter chegado a 30 edições em 31 anos - criado em 1979, o festival só não foi realizado em 1982, por falta de verbas.
Problema, aliás, que não se resolveu até hoje. O FML terminou ontem mantendo sua qualidade artística e educacional, mas não pôde lançar um livro ou um disco comemorativo porque não sobrou dinheiro para tanto. O governo estadual reduziu o seu repasse em R$ 50 mil. A campanha ''Leãozinho Cultural'', que visava angariar recursos através do imposto de renda, teve baixíssima adesão.
Assim, o 31º FML começa agora para os organizadores com os mesmos desafios de sempre: participar de editais (em 2010, R$ 200 mil vieram de um da Petrobras), correr atrás de patrocinadores e pleitear junto aos governos estadual e municipal a verba para a próxima edição - orçada em R$ 1 milhão (a atual teve R$ 800 mil). Pelo menos, o município já prometeu R$ 50 mil a mais para o ano que vem.
Esse trabalho, além da prestação de contas e todo o serviço burocrático, deverá ser feito em uma sede improvisada, ainda a ser definida. Isso porque a atual sede da Associação dos Amigos do FML, uma sala emprestada pela prefeitura na Secretaria de Cultura, precisará ser desocupada para que o prédio passe por uma reforma. Para onde vai a associação ainda é um mistério.
Mas o festival segue. É lei. ''Quando eu fiz o festival pela primeira vez, em 1990, a gente conseguiu assegurar a sua realização por meio de um decreto-lei'', comenta o pianista londrinense Marco Antônio Almeida, diretor artístico do festival. Confira trechos da entrevista que ele concedeu à FOLHA.
Aos 30 anos, o FML já é um senhor consolidado ou um jovem promissor?
A própria FOLHA chamou o festival de balzaquiano. A mulher balzaquiana não é aquela de 30 anos, que conhece os amores e desamores da vida? Assim é o FML também. Já tem uma certa maturidade, já passou por altos e baixos, mas está se consolidando. A grande vitória dos 30 anos é ele chegar aos 30 anos. É um festival maduro, já passou por altos e baixos, e chega à 30 edição bem consolidado, bem bonito, com uma bela programação.
Se há uma lei garantindo sua realização, qual seria o principal problema hoje do FML?
É a parte financeira. Há uma instabilidade por parte dos promotores, que são o Estado, a prefeitura e a UEL. Da parte dos patrocinadores, ainda são poucos, apesar de alguns estarem sempre conosco. Por isso lançamos o Leãozinho Cultural. A campanha está caminhando muito devagar, mas eu esperava isso mesmo. É uma coisa nova, as pessoas demoram para entender.
Mas o festival também arrecada com inscrições e ingressos.
O que isso gera de dinheiro pra gente é uma coisa simbólica, mínima. Agora existe aí uma contradição: eu mandei um técnico valorar, o festival gera R$ 1 milhão por semana no comércio da cidade. Mais uma razão para os empresários de londrina investirem.
Como se resolveria esse problema de instabilidade financeira?
É preciso trabalhar em três colunas: primeiro, fazer um contrato de cinco anos com os promotores firmando um x de verba básica, independentemente de mudanças políticas. Isso garantiria a parte pedagógica. A segunda coluna ficaria com a associação, que partiria em busca dos patrocinadores para a parte artística, que vai sempre ser variável, não tem jeito. E a terceira seria uma conscientização maior do cidadão e empresário londrinense no uso do seu imposto.
Em seu show no domingo, o Arrigo Barnabé disse que ''a música popular não precisa das migalhas da música clássica'', querendo dizer que falta um pouco de carinho para a música popular no festival. Falta mesmo?
Quando ouço um comentário desse fico muito triste, porque os dois cachês mais caros do festival foram o da Fafá de Belém e o dele. Isso não é carinho o suficiente? Eu não entendo essa frase. A música popular representa quase 50% da programação, ocupa os mesmos espaços que a erudita. Dei um acento muito grande para a música de raiz, trazendo a Lia de Itamaracá e introduzindo um curso de viola caipira, fizemos curso de DJs. E a base do Arrigo é a música erudita. De qualquer modo, ele vai continuar sendo muito bem-vindo e convidado ao FML.
Aliás, foi você quem inseriu a música popular no FML, não?
Eu introduzi a música popular no festival em 1990 e fui muito criticado por isso. E não foi para fazer música comercial, mas para dar apoio aos músicos londrinenses, para que eles pudessem ter uma formação e aprimoramento.
E hoje em dia os limites entre essas duas já estão bastante difusos...
Essa determinação existe, mas eu não gosto de separar a música erudita da popular. Para mim existe a música boa e a ruim. Há muita música popular que são clássicos e muita música clássica chata. Uma estratégia que faço é colocar dois compositores como Vivaldi e Piazolla no mesmo concerto. Quem foi para ouvir Piazolla conheceu Vivaldi e vice-versa. Essa é a minha sedução musical para com o ouvinte. Com isso o festival ganha cada vez mais público.
O FML forma público, mas também investe pesado na formação dos músicos...
Geralmente os festivais são feito por concertos, eventos. Eu brinco que evento é vento, ele passa. Por isso passamos a investir pesado, junto com a programação artística, no lado pedagógico. Tanto que fizemos 55 cursos este ano, e recebemos quase 900 alunos.
Uma novidade este ano foi o Encontro Paranaense de Composição Musical. É uma busca por novos caminhos?
A minha primeira linha de pensamento sempre foi e sempre será a educação musical, tanto para alunos quanto para professores, em todas as idades e todos os níveis. Na segunda linha eu coloco os eventos científicos no festival. Temos o Simpósio Paranaense de Educação Musical, que já está na 16 edição, depois criei o Concurso Nacional Jovens Cameristas e agora o encontro de composição, junto com o Departamento de Música da UEL. É um espaço onde os compositores paranaenses podem discutir sobre estética, técnicas de composição. O encontro vai gerar - e esse é um sonho futuro - um acento mais forte a novas tendências musicais, tanto de criação quanto de performance.


