São Paulo - Tem gente que morre de medo de ser chamado na sala do departamento de recursos humanos da Globo. Mas Vagner Meneses Pereira está contando os dias. Coreógrafo e ator da novela das 7 ''Cheias de Charme'', Fly, como é conhecido, inclusive no ar, foi promovido a diretor de shows da emissora. ''Estou só esperando a novela acabar para mudar o meu crachá.''
Na trama das Empreguetes, Fly é o único do elenco que, fora as participações especiais, como a de Reynaldo Gianecchini um dia desses, interpreta a si próprio. Antes da novela de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira entrar no ar, foi convocado para criar as coreografias das personagens Chayene (Cláudia Abreu) e do trio de domésticas-cantoras. A interação deu tão certo que ele virou personagem. ''Eles escreveram para mim. Tenho liberdade total'', diz, sem esconder o orgulho.
Apesar de as cantoras de ''Cheias de Charme'' terem sido criadas a partir de livre inspiração em artistas do tecnobrega, como Joelma da banda Calypso, Fly tem outras referências para os passinhos mostrados na novela. ''Com a Chayene, fui em cima de Clara Nunes. Já com as Empreguetes, a inspiração foi na sensualidade da Beyoncé e nas chacretes'', conta o coreógrafo, de 40 anos. O trabalho, segundo ele, vai muito além da interpretação. ''Se elas fossem se lançar como cantoras, já estariam prontas.''
Foi a dança, lá ainda no começo dos anos 90, que levou o carioca à televisão. Integrante do grupo You Can Dance, com outros três colegas, Fly foi convidado para fazer parte do ''Xou da Xuxa''. O bom desempenho ao lado da loira e a desenvoltura frente às câmeras o fizeram girar por outros programas globais, como ''Caldeirão do Huck'', e ele fincou raízes.
Mas Fly não é só um corpinho dançante. Atualmente, quando não está em cena batendo a marcação dos passos de suas artistas, está evitando que funcionários da emissora dancem - por má administração. Fly dá aulas de educação financeira, logo ele, que passou maus bocados na faculdade de marketing que era bancada pela empresa. ''Perdi a bolsa de estudos ao repetir numa matéria. Fiquei seis meses morando de favor com parentes'', relembra ele. Com os telefones de Xuxa e Luciano Huck na agenda, preferiu se virar. ''Eu tenho meu talento, continuei trabalhando.''
Fly admite, hoje, que a ascensão rápida o deslumbrou. ''Eu morava no morro e queria ter as melhores roupas, o melhor celular. Quando você não tem nada, quer ter tudo'', conta. Fly até posou nu, com o You Can Dance, para uma revista gay. ''Fizemos aquilo para pegar mulher. Éramos feios. Ainda somos um pouco'', brinca ele.
Hoje, quem o vê em roupas coloridas ensinando a mulherada a rebolar, não imagina o homem de negócios que há por trás. ''Também sou investidor de longo prazo. Aplico em imóveis, ações e títulos públicos'', diz ele, que mora em apartamento próprio. ''Não há problema em consumir. Não é para virar o Tio Patinhas.''
O principal chamariz de suas consultas financeiras vem da própria história. As aulas, que começaram em uma sala no Projac, onde ficam os estúdios da Globo, hoje se expandiram até para outras cidades e turmas na internet. ''Organizo meu horário para tirar dúvidas on-line quando chego em casa'', diz. Nas horas livres, Fly ainda recebeu lições sobre a estrutura da Globo, que lhe abriram caminho até o cargo de chefia, com cursos de edição e câmera. ''Eu participava até da confecção de cenários'', conta. E mesmo com o novo crachá, diz que vai manter distância das estrelas da casa. ''Sou estritamente profissional. Acho que é por isso que sou próximo deles há anos. Não levo nem a família para conhecer.''

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