Em astronomia, certos astros, asteróides, cometas e meteoritos não obedecem à rota estabelecida de gravitar em torno de uma órbita, como é o caso da terra e dos outros planetas do sistema, girando em torno do sol. Fazem uma rota imprevista pelos cientistas e, de repente, podem colidir com algum planeta, modificando sua superfície, seu clima, sua geografia, destruindo espécies, transformando a vida.
Já dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em seu livro ‘‘Assim Falou Zaratustra’’, das três fases da humanidade que seriam a do camelo, a do leão e a do menino. O primeiro é o escravo do trabalho, o segundo é aquele que se afirma dizendo Eu Sou e o último simplesmente vive a vida, sem querer provar nada, sem pensar que tem de levar o mundo nas costas.
Assim parece ser a vida, a trajetória de algumas pessoas, astros errantes, que fazem seu percurso inesperado, atropelando nossas certezas planejadas, nossos projetos de um mundo dominado, organizado segundo os parâmetros da razão. Seres que, em suas lógicas completamente desvinculadas das nossas, acertam em cheio a medula da condição humana, construindo seu mundo de maneira tão própria e pessoal que são chamados de loucos, lunáticos, profetas, poetas, artistas.
Pessoas como Rimbaud, Artaud, Zé Celso Martinez Corrêa ou Cazuza, por exemplo, não vieram a este mundo para serem domesticados. Suas vidas e suas obras plenas de lucidez são consideradas, aos padrões de normalidade que regem nossa sociedade, como coisas de outro mundo. A urgência da sensibilidade dessas pessoas os faz verdadeiros visionários, cuja mensagem demoramos a reconhecer. Como uma estrela cadente que percorre o céu, a luz de suas ações está em nos colocar diante do inesperado que também é real.
O que dizer de uma mulher como Jardelina da Silva que, aos 71 anos, percorre as ruas de Bela Vista do Paraíso, com suas criações originais, com performances que incluem canto, dança, teatro, artes plásticas, estilismo, misticismo? Ou então, de Arthur Bispo do Rosario, que, trancafiado por mais de 50 anos em um hospício, criou uma obra monumental e impressionante, de diálogo com a arte contemporânea, sem que ninguém soubesse de sua existência?
No carnaval deste ano foi a vez do Profeta Gentileza ser homenageado pelo carnavalesco Joãosinho Trinta na escola de samba Grande Rio. Com barbas brancas, calvo e vestido de túnica branca, Gentileza saia pregando e pintando nas colunas dos viadutos do Caju, murais que continham palavras e textos como ‘‘gentileza gera amor, humanidade, riqueza, beleza, natureza’’. Atenta, a cantora Marisa Monte dedicou uma canção ao Profeta em seu último CD.
Graças a esses seres sensíveis e criativos, que cruzam nossos céus de vez em quando, é que vamos aprendendo a capacidade de viver, como um menino, simplesmente.
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