São Paulo – Gramado anunciou na terça-feira os filmes que serão apresentados na 41ª edição do Festival de Cinema Brasileiro e Latino, de 9 a 17 de agosto. O evento será inaugurado pelo longa "Flores Raras", de Bruno Barreto, que teve sua première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro. Oito filmes integram a competição brasileira e seis, a latina. Não faltarão bons filmes - "Éden", de Bruno Safadi, que integrou a Première Brasil no Festival do Rio de 2012 - nem escândalos anunciados.
Há quase 40 anos, a nudez frontal de Walmor Chagas em "Um Homem Célebre", de Miguel Faria Jr., provocou réplica e tréplica, mas os tempos eram outros e o País vivia a longa noite da ditadura militar. A ditadura volta agora como pano de fundo de "Tatuagem", de Hilton Lacerda. O filme passa-se em 1978 e tem como cenário o Chão de Estrelas, cabaré anarquista frequentado por dissidentes do regime e gays. Animador do cabaré, Clécio inicia tórrido romance com jovem soldado. O que virá daí gera expectativa - como roteirista e produtor, Lacerda já imprimiu sua marca no cinema brasileiro.
No texto distribuído à imprensa para anunciar a seleção de Gramado neste ano, Fernando Meirelles dá seu depoimento. Meirelles prescinde de apresentação - há um cinema brasileiro antes e depois de "Cidade de Deus", de 2001. Segundo ele, "se olharmos para a história do festival (de Gramado), poderemos saber como foi o nosso Brasil e o nosso cinema nos últimos 40 anos". O evento, para falar a verdade, sofreu uma crise de identidade, e ela remonta ao início dos anos 1990.
Quando o cinema do Brasil quase foi desmantelado no governo de Fernando Collor de Mello - com seu plano de moralização da coisa pública que se revelou 'imoral' -, Gramado virou festival latino por falta de produção brasileira e também porque o Rio Grande (Porto Alegre) é o ponto avançado nacional do Mercosul. A dupla identidade - cinema brasileiro e latino - foi uma solução interessante, mas Gramado, cidade turística, começou a dar mais atenção para o tapete vermelho do que para a qualidade dos filmes.
O problema, evidentemente, não é o tapete vermelho, que Cannes também tem e é o maior festival do mundo. O problema é quando celebridades de segunda categoria ficam mais importantes que o cinema de autor, que se espera num festival. Nos últimos anos, Gramado tem tentado corrigir isso. A seleção, com curadoria de Rubens Ewald Filho, José Wilker e Marcos Cantuária, não obriga que os filmes sejam, necessariamente, inéditos. Entre os brasileiros, três integraram a Première Brasil - "Éden"; "A Coleção Invisível", de Bernard Attal; e "Primeiro Dia de Um Ano Qualquer", de Domingos Oliveira.
A seleção latina (ou iberoamericana) inclui uma coprodução Brasil/Argentina - "A Oeste do Fim do Mundo", de Paulo Nascimento. Os demais concorrentes são "Cazando Luciérnagas", de Roberto Flores Prieto, Colômbia; "El Padre de Gardel", de Ricardo Casas, Uruguai; "Puerta de Hierro - El Exilio de Perón", de Dieguillo Fernández e Victor Laplace, Argentina; "Repare Bem", de Maria de Medeiros, Portugal; e "Venimos de Muy Lejos", de Ricardo Piterbarg, Argentina (de novo).

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