Flores em Vida para Solda
Simone Mattos
De Curitiba
Um trecho da composição de Nelson Cavaquinho ( Me dêem as flores em vida/ o sorriso, a mão amiga/ para amenizar meus ais), inspirou os amigos mais próximos do cartunista, escritor, compositor e programador visual Luis Antônio Solda, 48 anos, a organizarem um bazar cultural, em Curitiba. Considerado um dos maiores talentos paranaenses, Solda está sem produzir regularmente há seis anos, devido a sérios problemas de saúde. O evento, que reunirá cerca de 50 artistas locais, acontecerá amanhã, no Memorial de Curitiba, e pretende arrecadar fundos para custear o tratamento médico do artista.
Estarão à venda no bazar cultural obras de 15 artistas plásticos, entre eles: Denise Roman, Leila Pugnaloni, Rogério Dias, Miran, Rettamozzo, Iara Teixeira e João Urban, além de livros de Alice Ruiz, Paulo Leminski, Marcos Prado, Wilson Bueno e Thadeu Wojciechowski. O público poderá também adquirir cartuns feitos pelo próprio Solda, além de camisetas estampadas com as mesmas ilustrações.
O evento contará com shows das bandas Maxixe Machine e Os Catalépticos e com a apresentação do cantor Carlos Careqa, que veio de São Paulo especialmente para prestigiar o amigo. A previsão dos organizadores é atrair um público médio de 1,5 mil pessoas e arrecadar cerca de R$ 15 mil.
A idéia surgiu há pouco mais de um mês. A amizade entre Solda e os organizadores do evento, os publicitários Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado, entretanto, já está próxima de completar três décadas. O que ele produziu é uma obra revolucionária, feita com um humor mortal, define Wojciechowski. Muitos se inspiraram em seus cartuns e em sua poesia, afirma.
Prado, que além de amigo é cunhado de Solda, lembra que ele atuou como colaborador nas principais revistas do País, como Playboy e O Pasquim, transformando Curitiba num verdadeiro centro de produção de cartuns.
Autor de uma obra polêmica e ousada, Solda enfrentou a dura ditadura militar nos anos 60 e 70. Nesta época, ele conquistou o primeiro lugar no Salão de Arte de Piracicaba (SP), mas não pôde receber o prêmio porque o seu cartum era contra o governo, comenta Prado.
Além de premiado inúmeras vezes, o cartunista foi laureado em Nova York e elogiado por nomes como Ziraldo e Millôr Fernandes. Nos palcos, ele também fez a sua parte, como ator, dramaturgo, compositor, músico e letrista. No início dos anos 70, Solda era nome presente no teatro de vanguarda brasileiro, ao lado de talentos como Manoel Carlos Karam, Alberto Centurião, Ione Prado e Dante Mendonça.
Quem conviveu com ele nesta época não se cansa de falar sobre a sua importância na arte nacional. Solda me confirmou a importância do humor na nossa vida, comenta a escritora Alice Ruiz, parceira de Solda em premiados trabalhos publicitários. Ele me mostrou que sem o lúdico, a inteligência não se desenvolve.
Emocionada ao falar do amigo, ela lembra da época em que Solda frequentava a sua casa e também fazia parcerias com seu ex-marido, o poeta Paulo Leminski. Morro de saudades desta época. Agora, Solda está tão quietinho, no canto dele, comenta Alice.
No bazar cultural, Alice estará participando com pelo menos um exemplar de cada livro de Paulo Leminski e dois exemplares de cada obra sua, retirados do acervo da família. O evento, em sua opinião, além de ajudar a custear o tratamento médico de Solda, servirá para reunir e reavivar toda uma geração de artistas. As pessoas irão por saudades ou curiosidade, diz ela.
Outra função do bazar, em sua opinião, será a de trazer mais informações ao público curitibano. Me revolta quando ouço alguém da nova geração perguntando quem foi o Solda, reclama. Ela critica a falta de informações do grande público, justificada sempre pela falta de tempo.
Solda foi alguém que fez, faz e fará um trabalho muito importante para a cultura, define Alice. Mas dizer só isto sobre ele é muito pouco, perto de toda a obra que já produziu, complementa.Artistas curitibanos organizam bazar cultural, amanhã. Evento vai arrecadar fundos para tratamento de saúde do artista multimídia Luiz Antonio Solda
Arquivo FolhaLuiz Antonio Solda: talento reconhecido até no exteriorArquivo FolhaA poeta Alice Ruiz: Ele me mostrou que sem o lúdico, a inteligência não se desenvolveArquivo FolhaUm dos cartuns de Solda que será comercializado no bazar





