Um caso de amor explicíto com a poesia. Assim pode ser definida a obra da poeta portuguesa Florbela Espanca, que amou mais do que viveu. Nos poemas, Florbela oferece ao leitor um guia sobre o erotismo, um roteiro das emoções femininas, um missal da dor. De forma grandiosa, sem precedentes na literatura feminina portuguesa, ela compilou as próprias dores e as reuniu em sílabas e frases. Ficaram os poemas, como um diário íntimo esmiuçado, como um buraco de fechadura espreitado. Seu sofrimento virou rima, sua sina virou arte.
O livro ‘‘Poemas’’, de Florbela Espanca, da editora Martins Fontes, preparada por Maria Lúcia Dal Farra, que fez o estudo introdutório, a organização e as notas, fala do amor e da dor. Infalível e irremediavelmente, os dois sentimentos caminham atrelados. A poeta nasceu Florbela de Alma da Conceição Espanca, em 1894, na cidade de Vila Viçosa, no Alentejo. Encarnou ideais feministas numa sociedade portuguesa que respirava ares de República, mas resguardava valores moralistas. Casou-se três quando o divórcio ainda não era digerido com naturalidade. Não teve filhos. Suscitou sobre sua vida diversas insinuações, que vão do lesbianismo até à ninfomania. Não escapou de ter seu nome ligado a um incesto com o irmão. Este, mergulhou para a morte durante um vôo de treino, no Tejo. Ela se confessou ‘‘arrasada, esfacelada’’, pela perda.
Vivia só e conciliava o sono com doses generosas de Veronal, que ingeriu em quantidade letal ao completar 36 anos, em 1930, em Matosinhos. Foi-se a mulher, ficou a obra, que só ficou conhecida depois de sua morte. Em vida, ela bancou a publicação de dois de seus livros: ‘‘O Livro de Mágoas’’ (1919) e o ‘‘Livro de Sóror Saudade’’ (1923).
Sobre sua dor, ela escreveu: ‘‘Saudades e amarguras/ Tenho eu todos os dias,/ Não podem pois adejar/ Em meus versos alegria. Saudades e amarguras/ Tenho eu todas as horas,/ Quem noites só conheceu,/ Não pode cantar auroras./
Aos namorados ela disse: ‘‘Li um dia, não sei onde,/ Que em todos os namorados/ Uns amam muito, e os outros/ Contentam-se em ser amados./ Fico a cismar pensativa/ Neste mistério encantado.../ Digo pra mim: de nós dois/ Quem ama e quem é amado?.../
Não havia, para ela, distinção entre amor e poesia: ‘‘É só teu o meu livro; guarda-o bem;/ Nele floresce o nosso casto amor/ Nascido nesse dia em que o destino / Uniu o teu olhar à minha dor!’’.
Um dos poemas mais lembrados pelos brasileiros (leia-o nesta página) , talvez por ter sido musicado e gravado por Raimundo Fagner, resume a essência da obra de Florbela Espanca.
• Poemas de Florbela Espanca - Organizado por Maria Lúcia Dal Farra - Martins Fontes. R$ 24,50

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