Em missão ''civil'' pelo Brasil, na semana passada, o casal de expatriados mais famoso do País a cantora Flora Purim e o percussionista Airto Moreira deu canja em bares de hotéis e, na sexta, fez uma jam session com velhos companheiros no restaurante Mancini. Hoje devem estar no Recife, onde Flora inaugura um estúdio que leva seu nome e eles se encontram com grupos para os quais produziram discos e vídeos: o grupo de maracatu Nação Erê, Mestre Salustiano e Tavares da Gaita, de Caruaru.
Ela foi indicada para o Grammy duas vezes, ganhou uma (em grupo) e está em turnê americana promovendo o disco ''Perpetual Emotion''. Ele era o único brasileiro no palco do célebre concerto da Ilha de Wight, em 1967, acompanhando o trompetista Miles Davis, além de Chick Corea, Wayne Shorter, Dave Holland e Jack DeJohnette. Dizem que foi para Moreira que a ''Downbeat'' inventou a categoria ''percussionista'' em sua premiação anual.
Flora Purim comprou um apartamento em São Paulo e acertou uma apresentação no Bourbon Street. O problema é que, até o ano que vem, sua agenda está lotada e ela ainda não sabe quando será esse show. Airto Moreira só acompanhava a mulher, que é sua companheira desde 1967 ele a conheceu durante uma apresentação do Sambalanço Trio.
Atualmente, Airto dá aulas de Etnomusicologia na Universidade da Califórnia (Ucla), onde já estudaram Jim Morrison e Francis Ford Coppola. Acaba de gravar em Tóquio com o grupo japonês Kodo e o resultado acabou virando tema da Copa do Mundo de Futebol de 2002. Também prepara um disco novo no sistema DVD Áudio, com som surround, a nova coqueluche entre os jazzistas americanos. ''Herbie Hancock já faz turnê com o novo sistema'', diz o percussionista.
Flora começa a gravar um disco novo em setembro. Está escolhendo o repertório, mas diz que só vai aceitar dois standards no CD. ''O resto, só coisa nova'', diz ela. Entre essas coisas novas, uma versão em inglês para ''Maracatu Nação Amor'', de Moacir Santos. Sua gravadora insiste para que ela cante um blues e ela pensa em incluir algo de Peggy Lee no trabalho, ''só para fazer um agradinho''.
Flora e Airto já foram batizados com a modernidade musical em sua própria casa. Pais de Diana, de 27 anos, viram a filha tornar-se cantora de uma banda de trip hop, Eyedentity, de Nova York. Diana tem o apelido de Decibel e costuma gravar também em português.
É sempre um acontecimento um encontro com Flora e Airto. Suas histórias são saborosas. Nos anos 70, por exemplo, o casal e mais 22 percussionistas gravaram na Califórnia, no estúdio do Grateful Dead, a trilha sonora de ''Apocalypse Now'', de Francis Ford Coppola. ''Francis parecia que tinha assumido a persona do personagem de Marlon Brando'', diz Flora.
O diretor mandou fechar as portas dos estúdios e botou seguranças dos Hell's Angels para garantir a privacidade. ''Ninguém entrava, ninguém saía'', lembra Airto. Advogados dos estúdios que financiaram o filme foram ao local. ''Temos credenciais, representamos os investidores'', disseram. ''Aí veio o líder dos Angels e disse o seguinte, apontando para uma pistola na cintura: 'Meu nome é Big Jeff e essas aqui são minhas credenciais.''

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